E N D
3. Cinza das Horas (1917) Desencanto
Eu fao versos como quem chora
De desalento. . . de desencanto. . .Fecha o meu livro, se por agora
No tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso sangue. Volpia ardente. . .
Tristeza esparsa... remorso vo...
Di-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do corao.
E nestes versos de angstia rouca,
Assim dos lbios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
- Eu fao versos como quem morre.
Terespolis, 1912.
4. Carnaval (1919) Alumbramento
Eu vi os cus! Eu vi os cus!
Oh, essa anglica brancura
Sem tristes pejos e sem vus!
Nem uma nuvem de amargura
Vem a alma desassossegar.
E sinto-a bela... e sinto-a pura...
Eu vi nevar! Eu vi nevar!
Oh, cristalizaes da bruma
A amortalhar, a cintilar!
Eu vi o mar! Lrios de espuma
Vinham desabrochar flor
Da gua que o vento desapruma...
Eu vi a Via-Lctea ardente...
Vi comunhes... capelas... vus...
Sbito... alucinadamente...
Vi carros triunfais... trofus...
Prolas grandes como a lua...
Eu vi os cus! Eu vi os cus!
- Eu via-a nua... toda nua!
Clavadel, 1913.
5. Debussy
Para c, para l...
Para c, para l...
Um novelozinho de linha...
Para c, para l...
Para c, para l...
Oscila no ar pela mo de uma criana
(Vem e vai...)
Que delicadamente e quase a adormecer o balana
psiu...
Para c, para l...
Para c e...
o novelozinho caiu.
6. Ritmo Dissoluto (1924) Ritmo Dissoluto (decomposto ou depravado): Negao das formas tradicionais.
Conquista do verso livre, mas sem abandono da tradio da poesia metrificada.
Prosasmo: ateno para as cenas comuns e para linguagem cotidiana, de que Bandeira desentranha a poesia.
Dilogo forte com o modernismo.
7. Meninos carvoeiros
Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade. Eh, carvoero!
E vo tocando os animais com um relho enorme.
Os burros so magrinhos e velhos.
Cada um leva seis sacos de carvo de lenha.
A aniagem toda remendada.
Os carves caem.
(Pela boca da noite vem uma velhinha que os recolhe, dobrando-se com um gemido.) Eh, carvoero!
S mesmo estas crianas raquticas
Vo bem com estes burrinhos descadeirados.
A madrugada ingnua parece feita para eles . . .
Pequenina, ingnua misria!
Adorveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincsseis! Eh, carvoero!
Quando voltam, vm mordendo num po encarvoado,
Encarapitados nas alimrias,
Apostando corrida,
Danando, bamboleando nas cangalhas como espantalhos desamparados.
8. Gesso
Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova
o gesso muito branco, as linhas muito puras,
Mal sugeria imagem de vida
(embora a figura chorasse).
H muitos anos tenho-a comigo.
O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de ptina amarelo-suja.
Os meus olhos, de tanto a olharem,
Impregnaram-na da minha humanidade irnica de tsico.
Um dia mo estpida
Inadvertidamente a derrubou e partiu.
Ento ajoelhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmentos, recompus a figurinha que chorava.
E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mias o sujo mordente da ptina...
Hoje este gessozinho comercial
tocante e vive, e me fez agora refletir
Que s verdadeiramente vivo o que j sofreu.
9. Na Rua do Sabo
Cai cai balo
Cai cai balo
Na rua do Sabo!
O que custou arranjar aquele balozinho de papel!
Quem fez foi o filho da lavadeira.
Um que trabalha na composio do jornal e tosse muito.
Comprou o papel de seda, cortou-o com amor, comps os gomos oblongos...
Depois ajustou o morro de pez ao bocal de arame.
Ei-lo agora que sobe pequena coisa tocante na escurido do cu.
Levou tempo para criar flego
Bambeava, tremia todo e mudava de cor.
A molecada da rua do Sabo
Gritava com maldade:
Cai cai balo!
Subitamente, porm, entesou, enfunou-se e arrancou das mos que o tenteavam
10. E foi subindo..
para longe...
serenamente...
Como se o enchesse o soprinho tsico do Jos.
Cai cai balo!
A molecada salteou-o com atiradeiras
assobios
apupos
pedradas.
Cai cai balo!
Um senhor advertiu que os bales so proibidos pelas posturas municipais.
Ele foi subindo...
muito serenamente...
para muito longe...
No caiu na rua do Sabo.
Caiu muito longe... Caiu no mar, nas guas puras do mar alto.
11. Potica
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionrio pblico com livro de ponto expediente protocolo e manifestaes de
[preo ao Sr.diretor.
Estou farto do lirismo que pra e vai averiguar no dicionrio o cunho vernculo de um vocbulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construes sobretudo as sintaxes de exceo
Todos os ritmos sobretudo os inumerveis
Estou farto do lirismo namorador
Poltico
Raqutico
Sifiltico
Libertinagem (1930)
12. De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
e resto no lirismo
Ser contabilidade tabela de co-senos secretrio do amante exemplar com [cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar s mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bbedos
O lirismo difcil e pungente dos bbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
No quero mais saber do lirismo que no libertao.
13. Teresa
A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estpidas
Achei tambm que a cara parecia uma perna
Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)
Da terceira vez no vi mais nada
Os cus se misturaram com a terra
E o esprito de Deus voltou a se mover sobre a face das guas.
14. Porquinho-da-ndia
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-ndia.
Que dor de corao me dava
Porque o bichinho s queria estar debaixo do fogo!
Levava ele pr sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele no gostava:
Queria era estar debaixo do fogo.
No fazia caso nenhum das minhas ternurinhas . . .
O meu porquinho-da-ndia foi minha primeira namorada.
15. Madrigal to engraadinho
Teresa, voc a coisa mais bonita que eu vi at hoje na minha vida, inclusive
[o porquinho-da-ndia que me deram quando eu tinha seis anos.
16.
Pneumotrax
Febre, hemoptise, dispnia e suores noturnos.A vida inteira que podia ter sido e que no foi.Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o mdico: Diga trinta e trs. Trinta e trs . . . trinta e trs . . . trinta e trs . . . Respire............................................................................................ O senhor tem uma escavao no pulmo esquerdo e
[o pulmo direito infiltrado.
Ento, doutor, no possvel tentar o pneumotrax? No. A nica coisa a fazer tocar um tango argentino
17.
Vou-me embora pra Pasrgada
L sou amigo do rei
L tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasrgada
Vou-me embora pra Pasrgada
Aqui eu no sou feliz
L a existncia uma aventura
De tal modo inconseqente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive
E como farei ginstica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a me-d'gua
Pra me contar as histrias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasrgada
18. Em Pasrgada tem tudo
outra civilizao
Tem um processo seguro
De impedir a concepo
Tem telefone automtico
Tem alcalide vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de no ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- L sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasrgada.
19. Estrela da Manh (1936) Momento num caf
Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no caf
Tiraram o chapu maquinalmente
Saudavam o morto distrados
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida uma agitao feroz e sem finalidade
Que a vida traio
E saudava a matria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.
20. Poema do beco
Que importa a paisagem, a Glria, a baa, a linha do horizonte?
O que eu vejo o beco
21. Lira dos cinqenta anos (1941) O martelo
As rodas rangem na curva dos trilhos
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu naufrgio
Os elementos mais cotidianos.
O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei.
Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como arrulho de pomba.
Sei que amanh quando acordar
Ouvirei o martelo do ferreiro
Bater corajoso o seu cntico de certezas.
22. Testamento
O que no tenho e desejo
o que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros perdi-os...
Tive amores esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.
Vi terras de minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.
Gosto muito de crianas:
No tive um filho de meu.
Um filho!... No foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que no nasceu.
Criou-me, desde menino,
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a sade...
Fiz-me arquiteto? No pude!
Sou poeta menor, perdoai!
No fao versos de guerra,
No fao porque no sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que no lutei.
23. Belo belo (1948) Nova Potica
Vou lanar a teoria do poeta srdido.
Poeta srdido:
Aquele em cuja poesia h a marca suja da vida.
Vai um sujeito.
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira
[esquina passa um caminho, salpica-lhe o palet ou a cala de uma ndoa de lama:
a vida.
O poema deve ser como a ndoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia tambm orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento amadas
[que envelheceram sem maldade
24. O bicho
Vi ontem um bichoNa imundcie do ptioCatando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
No examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho no era um co,
No era um gato,
No era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
25. Mafu do Malungo (1948)Versos de circunstncia Auto-retrato
Provinciano que nunca soubeEscolher bem uma gravata;Pernambucano a quem repugnaA faca do pernambucano;Poeta ruim que na arte da prosaEnvelheceu na infncia da arte,E at mesmo escrevendo crnicasFicou cronista de provncia;Arquiteto falhado, msicoFalhado (engoliu um diaUm piano, mas o tecladoFicou de fora); sem famlia,Religio ou filosofia;Mal tendo a inquietao de espritoQue vem do sobrenatural,E em matria de profissoUm tsico profissional.
26. Opus 10 (1952) Consoada
Quando a Indesejada das gentes chegar
(no sei se dura ou corovel),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
Al, iniludvel!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilgios.)
Encontrar lavrado o campo, a casa limpa.
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
27. Boi Morto
Como em turvas guas de enchente,
Me sinto a meio submergido
Entre destroos do presente
Dividido, subdividido,
Onde rola, enorme, o boi morto,
Boi morto, boi morto, boi morto.
rvores da paisagem calma,
Convosco altas, to marginais!
Fica a alma, atnita alma,
Atnita para jamais,
Que o corpo, esse vai com o boi morto,
Boi morto, boi morto, boi morto.
Boi morto, boi descomedido,
Boi espantosamente, boi
Morto, sem forma ou sentido
Ou significado. O que foi
Ningum sabe. Agora boi morto,
Boi morto, boi morto, boi morto.
28. Estrela da tarde (1958) Antologia
A vida
No vale a pena e a dor de ser vivida
Os corpos se entendem mas as almas no.
A nica coisa a fazer tocar um tango argentino.
Vou-me embora pra Pasrgada!
Aqui eu no sou feliz.
Quero esquecer tudo:
A dor de ser homem...
Este anseio infinito e vo
De possuir o que me possu.
Quero descansar
Humildemente pensando na vida e nas mulheres
[que amei...
Na vida inteira que podia ter sido e que no foi.
Quero descansar.
Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.
(Todas as manhs o aeroporto em frente me
[d lies de partir.)
Quando a Indesejada das gentes chegar
Encontrar lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Cada coisa em seu lugar.
29. Questes finais Formao do poeta moderno: evaso para o mundo (encontrar a poesia na vida cotidiana)
Poeta menor: vinculado expresso lrica em poemas breves.
Progressivo despojamento da forma: humildade, pobreza, simplicidade.
Libertao formal: verso livre (prosaico), sem abandonar a tradio potica
Experincia pessoal: infncia, doena, morte, pobreza