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13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel

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13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel

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  1. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • Coletânea de 13 escritores • catarinenses. • Literatura contemporânea – 2008. • 13 contos que abordam a cultura açoriana • (Franklin Cascaes e “suas” bruxas).

  2. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • Coletânea em homenagem a • nascimento (2008) ao etnólogo e • desenhista. • Houve bruxaria inclusive na publicação (2003-08). • Número 13. • Escritores: Salim Miguel, Flávio José Cardozo, Adolfo • Boos Jr., Amilcar Neves, Eglê Malheiros, Fábio Brüggemann, • Jair Francisco Hamms, Júlio de Queiroz, Maria de Lourdes • Krieger, Olsen Jr., Péricles Prade, Raul Caldas Filho e • Silveira de Souza.

  3. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • Franklin Cascaes deu a Florianópolis • o título de "Ilha da Magia“. • O livro é como uma metáfora sobre “cascaes”, que • significa amontoado de conchas, casqueiro, o • sambaqui ancestral. • Esse livro é não somente objeto de imaginação, • mas, principalmente, objeto de memória.

  4. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • O PRESÉPIO, de Adolfo Boos Jr. • Tema central: • O conflito entre as tradições ilhoas e • o seu apagamento sob o excesso de urbanidade no • presépio de Cascaes que é estranhamente • dessacralizado. • Narrativa: • Lentamente chega um caminhão perto da figueira, • que carrega um motorista idoso e três homens.

  5. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • O PRESÉPIO, de Adolfo Boos Jr. • Narrativa: • Eles descarregam, peça por peça,do presépio. • O jovem responsável pela montagem começa seu • trabalho, mas os passantes o atrapalham. • Então, ele pede aos seguranças que tirem o povo • dali. • O montador tinha uma foto do presépio no ano • anterior e deveria segui-la, mas deu um toque • pessoal, mudando a posição de um dos carneiros, • estética... Estética!

  6. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • O PRESÉPIO, de Adolfo Boos Jr. • Narrativa: • Quando chega a noite, o jovem decide mudar tudo • de posição, acreditando que ficaria muito melhor, e • assim o faz. • Na manhã seguinte, para seu espanto, todas as • peças voltaram ao lugar correto. • O jovem insiste nas modificações.

  7. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • O PRESÉPIO, de Adolfo Boos Jr. • Narrativa: • Surge então o encarregado do museu que fica • horrorizado com a situação e manda o jovem • recolocar todas as peças no seu lugar de origem, • afinal, São José foi apeado do camelo, Baltazar l • largou a mão de Maria, tiraram a camisa do Avaí de • Gaspar, recolocaram a capa nos ombros de • Melchior que, por sua vez, desistiu de tourear a • vaquinha. • O moço reclama que todos os dias colocava Jesus • sobre uma árvore e de manhã ele estava • novamente na manjedoura. • Alguém lembra que se o Professor Cascaes fosse • vivo... ai deles. • OBSERVAÇÕES: • Neste conto, o processo é mais importante do que o processado, talvez exatamente porque está ausente a figura de Cascaes. • Distante modelo original perdido, o criador sempre insiste na renovação, e todos exigem seu direito de opinião "estética",como em futebol todos se julgam técnicos. • UMA NOITE DE PROFUNDA INSÔNIA, de Amilcar Neves Tema central: Bruxas são erotizadas na maternidade de seres imaginários. Foi numa sexta-feira, numa noite de profunda insônia solitária."(p.29) O narrador diz que mora ocasionalmente na Ilha 19 e que encontrou seu vizinho que mora na Ilha Júlio Moura, 31, o primeiro é solteiro e o segundo, Franklin Cascaes, é casado e eles estão nos distantes anos 60 ou setenta. A rua está deserta, um ou outro cachorro perdido e os dois se encontram e caminham despreocupados até a Lagoinha do Jacaré do Rio Tavares onde acredita-se ser uma "maternidade tatarina",um "ninho de boitatás".A noite é perfeita e o Franque declama uma quadrinha: Ilha das velhas faceiras E, também, das moças prosas As bruxas dos teus encantos São lindas que nem as rosas Confessa o narrador acreditar que as bruxas da Ilha são absolutamente horríveis e Mestre Francolino afirma: Quase isso. Na verdade, apenas metade desse pessoal todo é que insiste em atestar que as bruxas são do jeito que descreveres. Apenas aquela metade diretamente interessada no assunto: as mulheres, as nossas mulheres, que temem a concorrência imbatível."(p.32) Logo avistam um grupo de mulheres, que abanam o rabo para o vizinho do narrador: Franculino, meu lobisomenzinho de estimação!"(p.32) Uma linda bruxa negra aproxima-se, dá um beijo em Cascaes, nota o narrador que todos estão nus. Ao retornarem para casa, pela Mauro Ramos, fala Franklin: A vida é assim mesmo, meu jovem amigo. Por diversos motivos não temos como compartilhar com os outros os nossos melhores momentos. Nem mesmo sendo um escritor de ficção: primeiro porque ninguém vai acreditar em ti e, se tiveres a intenção de falar a sério ,corres um riso considerável de ver a tua reputação arruinada sem remédio."(p.33) Neste conto, o autor reconstrói um encontro com o próprio Franque, colocando em xeque variadas questões: Bruxa existe ou não? Escritor terá "a intenção de falar sério"?O que é a verdade? A ficção engloba personagens reais, ou a realidade se compõe de personagens ficcionais? Criador e criatura podem conviver? 4.3 HISTÓRIA PRAIANA EGLÊ MALHEIROS Tema central: Bruxas assumem a condição de mulher autônoma no patriarcado das famílias, então, quem se rebela é bruxa? Partos a termo tinham sido doze, criou cinco."Docelina é mulher de pescador, está casada há 20 anos, já passou muita fome, está feia, pelancuda e seu marido é absolutamente controlador: não permite modernices',como ir ao Posto de Saúde e ele é o guardião do título de eleitor desta mulher sofredora. Ele, o marido, chamado Armando, é dado à bebedeiras, bailões e bate na esposa. Entretanto, nos últimos tempos, aos sábados, Docelina tem comparecido ao posto de saúde para umas palestras sobre a valorização da mulher e seu trabalho. À noite, os homens comentam no bar que as bruxas estavam virando a cabeça das mulheres; diz um dos homens: Bruxas é que elas são. Aquele professor da Escola de Artífices, que vivia escutando essas histórias, devia sair do túmulo para conhecer as verdadeiras, as dele não assustam mais ninguém."(p.38) "Tudo culpa das bruxas que vieram da cidade bagunçar as idéias de nossas mulheres. A Docelina ontem me enfrentou, se eu for para o bailão e encher a cara ela vai embora; pior, vai querer abrir inventário da herança do pai e pedir sua parte no terreno."(p.38) Armando afirma gritando "Os da antiga tinham razão, bruxas, bruxas, existem e são de assustar."(p.39) Enfim, Eglê Malheiros, retrata neste conto Docelina e seus 12 filhos, reduzidos a cinco, ou a quatro e meio, consolando-se com seus "anjinhos, almas puras",sem deixar, porém, de refletir "por que só filho de pobre vira anjinho?"Enquanto as "modernices" a aliciam, seu marido Armando lança a contrapartida: nessas "modernices" estão as "bruxas",da pior espécie",como diria, se presente estivesse, Aquele professor da Escola de Artífices! Certamente ficaria estarrecido. 4.4 O "MINHA QUERIDA" Fábio Brüggemann Tema central: Antiga embarcação como pretexto para a realidade paralela. O rapaz estava começando a se despedir de uma vida muito dura de garçom .Agora, além de dar adeus ao "Minha Querida",não tem que adivinhar mais, pela cara, roupa e conversa do freguês, o quanto será a féria, extraída dos mal contados dez por cento, no fim da noite, às vezes começo da manhã".(p.41)".Não precisaria mais comprar terno de brechó, podia dar adeus às lojas de um e noventa e nove onde comprava a decoração de sua casa depois que os pais morreram no naufrágio do "Amália";aliás, após a morte da esposa do armador, ele comprara um novo barco com o nome "Minha querida Amália",mas pouco depois, casou-se novamente e mudou o nome para "Minha Querida".Mas o que deixava nosso jovem mais feliz com sua nova vida era não passar mais em frente ao cemitério que ele jurava ter visto assombrações. Um dia, quando ainda trabalhava no restaurante, chegou para jantar o seu Francolino."(p.43) O garçom pediu para o patrão apresentá-lo ao professor que ouviu a história do rapaz e achou graça, mas afirmou que iria até o cemitério para mostrar a farsa das almas penadas. Seu Francolino mostrou que "o barulho era de uma árvore que balançava quando havia vento e raspava os galhos no muro. E a imagem era a sombra da mesma árvore no mesmo muro branco, iluminada pela mesma luz de um poste."(p.44) Depois da explicação, o professor foi embora e o rapaz foi com uma moça ao cemitério e visitaram uma lápide bem iluminada pela mesma luz que assombrava o muro e acharam a inscrição: aqui jaz Amália Rodrigues da Silva (1921-1974)" (p.44) O rapaz concluiu que era a dona Amália do Minha Querida, e no sábado seguinte comprou o bilhete 1921 e ficou rico. Mudou de vida, casou-se com a moça, e agora vai todos os sábados ao túmulo de dona Amália, que nasceu, para a sorte do rapaz, em 1921. Examinada criticamente a história do marido de Amália (no naufrágio do "Amália"), insinua-se a história do cemitério assombrado, quando o seu Francolino mais desfaz crendices do que recolhe causos. 4.5 DOIS BANDOLINS Flávio José Cardozo Tema central: A memória da coisa vivida (a ausência crônica da mulher, Elisabeth). Amanhã não venho trabalhar",o professor disse ao auxiliar Peninha no final do expediente, amanhã. tu bem sabes."e as palavras pararam, mas nem foi preciso dizê-las: Peninha botou a mão no ombro dele e bastou isso para mostrar que se lembrava muito bem de que amanhã, 30 de abril, eram mai um aniversário da morte de Dona Beth".(p.47) O professor dormiu pensando em passar aquele dia especial entre seus desenhos, escritos, esculturas e os crochês, músicas e flores de sua amada falecida mulher que adorava tocar uma modinha de bandolim quando viva e moradores daquela mesma casa da Júlio Moura. Nas o professor decidiu que seria melhor trabalhar no Museu, lá Beth seria mais viva. O dia foi normal e após o expediente, o professor saiu sem pressa com seu TL verde. À noite, sua fiel empregada Ana pôs a mesa, ele sentou no sofá e começou a pensar em bruxas: a Irinéia das Dores, a Virgilina e as três filhas, Demetra, Canda Mandioca, Nica Besuga, Sinhá Bidica e outras. Pelas onze e meia ouviu sons, sim era música. e de bandolim! Foi para fora de casa ver o que era. Quem tocava o instrumento não era Beth. Seca como um longo graveto, murcha e feia que nem os sete pecados capitais, quem tocava o bandolim não era Beth, não, diabolicamente não, quem tocava não era outra senão a bruxa bandolinista da Orquestra Selenita Bruxólica que certa noite, conforme o professor numa andança pela Ilha e depois fixou numa de suas histórias assombrosas, apareceu ao pescador Geraldo Sem Medo no Retiro da Lagoa."(p.50) A bruxa horrorosa gritava para que Franklin esquecesse sua Beth, que ela estava morta. O professor não sabia se invoca contra a megera segredos exorcísticos ou deixava a bruxa ali mesmo. Optou pela segunda. Quando entrou em casa apareceu-lhe sua amada esposa, tocando a Ave-Maria de Schubert em seu bandolim. Um vento, um bafo, pela Júlio Moura afora foi aquele desarvorado vôo de bruxa, sobre o qual o professor, discreto, nunca escreveu que um outro curioso por casos raros o fizesse."(p.51) Enfim, em tom poético, sensual e transfigurador, o conto restitui-nos um dia de ausências, saudades, revivências de um Cascaes de certa forma já desprendido do solo rude e entremostrando dimensões sublimadas, nos seus amores com Beth, amores que, se foram estéreis em relação a filhos, multiplicaram-se na afeição mútua, a ponto de, falecida ela, somente salvá-lo da solidão o "bendito Museu da Universidade",nesses "quatro anos sem Beth e sempre com ela",cena plenificada com a bruxa bandolinista sublimada e fundida na "soberana" Beth, bandolim silencioso na mão direita".4.6 BRANCO ASSIM DA COR DA LUA Jair Francisco Hamms Tema central: A memória de uma infância, na Ilha antiga, encontra áreas de profundidade humana. Sabe quem morreu? O Orlandinho, filho da dona Zenilda. (.) O seu Orlando saiu agorinha para comprar um caixãozinho. Ele e o professor Franklin Cascaes, que assim que soube, correu para lá. (.) O Orlandinho por quem a mamãe lamentava era albino."(p.54) Este menino viveu seus poucos 11 anos sofrendo, ora contra a bronquite, ora com asma. Era filho do negro Orlando da Purificação e da dona Zenilda, linda negra. O narrador que confessa ter sido seu vizinho, conta das perseguições ao menino, inclusive quando o chamavam de "barata descascada" e na escola Orlandinho não saía para o recreio para não ser mais humilhado ainda e ficava desenhando. Certo dia apareceu a professora dona Florentina com um homem até então desconhecido, era o professor Franklin Cascaes, que viera conhecer o Orlandinho e seus desenhos. O professor ficou muito impressionado com a qualidade dos desenhos e prometeu matricular o menino na escola particular da professora Jurema Cavallazzi e no ano seguinte na Escola Industrial onde ele lecionava. Pela primeira vez o menino sorria e parecia feliz. A escola era longe e quando o menino se cansava seu pai o levava no cangote. Na hora do recreio, Orlandinho desenhava os colegas ou heróis dos quadrinhos e era um sucesso. Mas esta felicidade só durou três meses, pois no dia 10 de julho, Orlandinho morria, vítima de insuficiência respiratória. O narrador descreve a sala e os que estão no velório como o Tércio da Gama e o Adolfo Boos e a parteira dona Vicentina e lembra que foi ali, há pouco mais de 11 anos, ali mesmo, num quartinho ao lado da sala, à luz de um lampião, fora a primeira pessoa a ver e a segurar aquele menininho branco branco branco, branco assim da cor da lua'.(p.57) O escritor, em cena de bastante intimismo poético, concentrada na morte do menino Orlandinho, filho da negra dona Zenilda, Branco assim da cor da lua, fazendo várias "personagens",além de Cascaes (de ares ponderados e humanitários), transitarem do real para a ficção: Tércio da Gama, Adolfo Boos, o próprio autor-narrador -todos "rapazes pequenos",moradores a Rua Bocaiúva, há décadas passadas. 4.7 O ABENÇOADO Júlio de Queiroz Tema central: Conjuração de bruxas que amaldiçoam a moderna medicina. Malina olhou ao longe. Há mil anos que venho recomendando a Pestina para aprender a chegar na hora combinada. Peste de bruxa que sempre se atrasa! comentou com o gato preto empoleirado no seu ombro esquerdo."(p.59) As bruxas começaram a se reunir, algumas contando as malvadezas que estavam aprontando. Ao total eram sete, como deveria de ser. Malina, convocando as bruxas, apresenta o motivo da convocação daquela reunião: com essa história de progresso, de médicos aos montes e uma farmácia em cada canto e em cada farmácia mil remédios para tudo, nós estamos ficando mais que desmoralizadas."(p.60) As bruxas concordam e apresentam exemplos de jovens que não acreditam mais em benzeduras e que preferem buscar a solução médica. Decidem então, que na próxima reunião, trarão soluções para o problema. Uma lua depois, caindo um Vento Sul fortíssimo, as bruxas começaram a chegar. Malina não foi a primeira, mas também não foi a última. Como só faltava a Pestina, Malina deu a sessão por aberta e quis saber o que é que suas irmãs haviam elaborado."(p.61) Pestina chega toda alvoroçada e diz que se atrasou porque viu em um lugarejo chamado São José um marido e uma mulher "querendo fazer aquelas coisas" (p.62) e que estavam lá três fadas disfarçadas de rolinhas e estavam abençoando o fruto daquele amor, afirmando que nasceria um menino no dia 16 de outubro de 1908, que chamar-se-ía Franklin e que ele preservaria a cultura daquele lugar, bem como as histórias de bruxas. Uma das bruxas apressou-se em dizer que era necessário matarem o menino, mas Malina, a bruxa chefe diz: Não seja burra!.A gente não queria ser lembrada? Pois aí está o menino que vai cuidar para que a gente não morra na memória das pessoas."(p.63) As outras bruxas concordaram e cada uma foi embora para seu destino. Então, este conto acaba colocando em foco um autêntico congresso bruxólico, com o objetivo de se tomarem resoluções eficazes para deter o crescente descrédito com que as bruxas vêm sendo tratadas, tudo "culpa do tal de progresso",bem como projetando, entrementes, as malignidades por elas forjadas, a bruxa Pestina relata cena ocorrida em São José, onde três fadas comentavam a concepção e o nascimento futuro de um menino que registrará todas as estórias, lendas, costumes, bruxas e bruxedos da região. 4.8 AO ENTRARDECER Maria de Lourdes Krieger Tema central: Pesca de arrastão como retrato antropológico "A chuva bate nas costas desnudas dos pescadores a puxarem os cabos da rede do arrastão."(p.65) Veranistas pedem por peixes, assim como Onofre, pescador já velho, mas que atua como olheiro em busca de cardumes. Ele não gostava muito das mudanças que trazia o verão: turistas, os corpos desnudos, o alarido e os costumes estranhos e seu amigo avisa que aquela destruição toda traria sérias conseqüências. Este amigo aparecia sempre com folhas de papel e lápis numa pasta de couro e com ele Onofre aprendeu a valorizar o chão em que vivia. O alvoroço da chegada das embarcações termina e Onofre agora volta a procurar cardumes e lembra de seu amigo Franklin:"vejam os manguezais."(p.67) e El sorri, pois sabe que este amigo deve estar contando histórias fantásticas para aquela a quem ele rendia homenagens: Nossa Senhora do Desterro. Este conto condensa uma cena ou instantâneo na vida praieira: a chegada dos pescadores com seu escasso produto, que é vendido para a divisão dos lucros, enquanto o "olheiro" Onofre lembra o amigo (não será preciso dar seu nome!) que tanto advertira sobre mudanças nefastas do progresso sobre essa ilha "embruxada pelo capitalismo e pelos gananciosos".4.9 O DIÁRIO DA VIRGEM DESAPARECIDA Olsen Jr. Tema central: A mulher é bruxa quando se emancipa "Tenho o hábito de recortar matérias de jornal que possuam qualquer coisa de singular, inusitado, insólito, original, curioso, enfim, algo capaz de compor a natureza humana além da mesmice cotidiana."(p.69) O narrador conta que leu uma manchete na véspera do Natal de 1978 Adolescente desaparece sem deixar vestígios ela era uma estudante na lagoa da Conceição e o pai, indignado, afirmava que a filha tinha sumido na mesma data que um estranho gringo fizera também o mesmo. A história não teria nada de especial, mas dez dias depois foi apresentado um diário, pela amiga da jovem que desaparecera. Este diário chamou a atenção do narrador que foi até a casa da moça e pediu uma entrevista com a mãe. Conseguiu ele ver a caderneta, mas não havia como emprestá-la e ele resolveu copiar as informações, cerca de dezessete anotações de página e meia cada, com apenas uma data: dia 4 de novembro. Quando já havia terminado, chega o pai da moça, aparentemente embriagado e joga a caderneta no fogo, afirmando tratar-se de um ritual para libertar a filha do embruxamento ou como dizia o professor Franklin Cascaes, do fado bruxólico. Descobre-se então que o nome do gringo era Raphael Constanzo Flores, alto, moreno, espadaúdo, gostava de fazer pães e era vizinho da moça. Ele havia decidido ser professora e com o tempo, aproximou-se naturalmente do jovem e a amizade transformou-se em paixão. Um dia acontece o inevitável e os dois fazem amor. No mês seguinte, a menstruação não veio e Raphael não se mostrou surpreso e acertou que os dois iriam para Curitiba. No dia 04 de novembro ela recebe uma folha de jornal com uma edição especial a respeito de Franklin Cascaes. Ela lê a notícia e vê o desenho de uma galinha choca. A reportagem apresentava informações sobre as bruxas da ilha: que elas tinham uma vida melhor se comparadas àquelas perseguidas pela Inquisição e que todas elas acreditavam que podiam voar, que possuíam poder sobrenaturais, poderes de curar, matar, de mudar as condições climáticas."também se ufanavam de ter relações sexuais com os demônios íncubos e súcubos. ncubo (por cima) e súcubo (por baixo). Os demônios se transformavam oram em homem (íncubo) oram em mulher (súcubo). Para a transformação o demônio deveria roubar o esperma humano, o que conseguia durante o sono, através da masturbação. As bruxas reclamavam que este esperma era muito frio, que eles tinham um membro muito ereto, mas sem sabor, porque frio."(p.75) A mesma reportagem ainda fala sobre uma galinha que perseguiu um pescador e ele bateu nela, quebrando-lhe o braço e no outro dia apareceu Merência, com uma tipóia no braço. Então deram um surra naquela mulher e lhe jogaram água e sal, para tirar o fado bruxólico. Depois disso, a moça tem alguns sonhos com bruxas e decide pela sua fuga na véspera do Natal. O diário terminava ali, Ah! Quase esqueço! O filho da Sibele (este é o nome da moça que fugiu) com Raphael, um rapaz moreno de olhos verdes chama-se Nathan, tem quase vinte e cinco anos, cursa engenharia e até acha graça quando associam o seu nascimento a um forte cheiro de enxofre no ar, é o sinal dos tempos, afirma, embora hoje ninguém acredite mais em bruxas; mas que elas existem, existem."(p.77) Assim, retomando em boa ótica a crendice bruxólica nesta Ilha da Magia, bem como um fato nada estranho às tradições açorianas (a fuga -rapto de adolescente), um caso de "fado bruxólico" se corporifica no sintético diário, astuciosamente reconstituído por ardis do narrador, que vai desfiando os fios dessa meada de aparência policialesca. 4.10 TALVEZ A PRIMEIRA E ÚLTIMA CARTA Péricles Prade Tema Central: Uma oitava filha' interpela Franklin e advoga sua condição de não-bruxa. O conto, em modelo de carta começa assim: Desterro, 14 de março de 1983. Seu Franklin."(p.79) A moça chamada Benta diz-se indignada, pois após uma afirmação em "Bruxas Gêmeas",conto do livro "O Fantástico na Ilha de Santa Catarina" datado de 1950 ela tem passado por bruxa, apesar de nunca ter feito nenhum mal a ninguém e que seu único gostinho é ficar nua, assim como gostam as bruxas quando é sábado. Benta relata que é gêmea de Santa e que seus pais já tinham seis filhos e que todos sabem que quando nasce o sétimo, se for menina, será bruxa. Seu pai, quando soube que a parteira, Custódia do Chico Pelego, esqueçera de marcar quem era a sétima, para chamar de Benta e livrá-la do mal, decidiu recorrer a Candinha Miringa, benzedeira e curandeira, mas de nada adiantou, pois seu Manoel Braseiro, não sabia responder quem era a filha bruxa. A benzedeira, então, pediu ajuda de Lúcifer, seu chefe. O problema é que Belzebu apontou Benta como bruxa e como ele sabia que ninguém acreditava nele, acabaram por desfazer o mal em Santa, o que de nada adiantou. Ao final, Benta acha graça da armadilha do demo e pede que o Sr. Cascaes mude o seu texto, caso contrário "Se até amanhã, dia 15, eu não for atendida, mudando o que deve ser mudado, morrerá para jamais voltar a cometer equívocos dessa natureza. E para aprender que não só as bruxas fazem mal."(p.81) O criador (ou compilador) não fugia do poder das criaturas! 4.11 NOITES DE ENCANTAMENTO Raul Caldas Filho Tema central: Relacionamento animoso e amoroso entre a antropóloga incrédula e o defensor do que é nativo. Um menino ouve, na noite que avança, histórias fantásticas de monstros, bruxas lobisomens até que sua mãe ordena que ele vá dormir. O menino brinca de modelas na areia aquelas noites de encantamento, ele é Franklin, 10 anos. Após um mês da morte de Franklin Cascaes em maio de 1983, Ricardo recebeu um telefonema de uma jornalista carioca querendo uma entrevista sobre nosso professor Seu nome era Natasha, uma bela mulher, de seios pontudos e corpo esguio. Ricardo levou-a até o Museu para apresentar as pinturas, desenhos, livros, pequenas esculturas de cerâmica e falou sobre as velhas crenças açorianas e principalmente sobre bruxas e como elas nascem. Natasha parecia desdenhar das histórias e Ricardo acha que ela é uma "racionalista-cartesiana, chata e presunçosa."(p.85) e quanto mais conhecia do trabalho de Cascaes mais ela achava tudo aquilo crendice de baixo extrato, sem o menor valor para antropologia. Ricardo lembrou-se de Sinhá Vitelina, uma velha curandeira e levou Natasha para conhecê-la. A velha afirmou: bruxaria é a maldade que ainda domina o mundo e se aloja na cabeça das pessoas. É o ódio, a inveja, o despeito, a luxúria, a violência, a maledicência."(p.86) Natasha e Ricardo voltaram para o carro e ficaram um bom tempo sem falar. Ela pediu que ele parasse em uma enseada, às margens da baía Sul. Começaram a trocar carícias mais que picantes e foram caminhar por um descampado. Natascha interrompeu Ricardo e disse: Meus pais vieram da Ucrânia para o Brasil, fugindo dos horrores da Segunda guerra Mundial. Estabeleceram-se no Rio de Janeiro e tiveram sete filhas. Eu fui a sétima. Interrompeu-se mais uma vez e acrescentou, enigmática: sou então uma bruxa."(p.87) Noites de encantamento, de Raul Caldas Filho, confirma que bruxas não povoam apenas a Ilha de Santa Catarina, pois, cerca de um mês após a morte de Cascaes, veio à Ilha Natasha, sétima filha de um casal que viera ao Rio de Janeiro, fugindo dos horrores da Segunda Guerra Mundial na Ucrânia. E veio com todos os direitos. 4.12 MISTÉRIO NO MIRAMAR Salim Miguel Tema central: A imaginação tem memórias "Atravessou correndo a Praça, ofegante e trêmulo entrou na cozinha adentro, onde a mãe preparava o café, e mal conseguiu murmurar: Ma-mãeo-cor-po-o-som."(p.89) O menino contou que estava no Miramar e viu um corpo e uma voz insistindo para ele falar com o Franklin. O corpo foi levado ao necrotério e o Dr. Luís Delfino vai fazer a autópsia e já no outro dia os jornais noticiavam "MISTÉRIO NO MIRAMAR. Ninguém sabia quem era o homem que estava sem dinheiro, documentos, apenas um lenço no bolso e uma pasta de couro, com as letras JCS, amarrada ao pulso. O pai e o menino foram até a delegacia, pois o pai conhecia o comissário Várzea. O garoto recontou o que ouviu sobre falar com o Franklin e Virgílio, o escrivão, disse que havia o professor da Escola Industrial. O professor não sabia de nada, apesar do menino Ernani ouvir seu nome e o cadáver possuir um desenho que poderia ser seu. Subitamente Cascaes revela que alguns dias atrás um homem lhe fizera um pedido estranho de um desenho: suas bruxas, com inteira liberdade, a única exigência é nas caras, uma deve lembrar Cruz e Sousa, outra a noiva Pedra, a terceira a esposa Gavita, a quarta, com cinco cabeças: Julieta, Carolina, Cruz, Gavita, Pedra."(p.93) Franklin explicou que o rapaz só buscou o primeiro desenho e quando Ernani viu o segundo desenho tomou um susto, dizendo que era aquele ser que o perseguiu no Miramar. Também lembrou-se nosso professor que o nome do indivíduo era João, que tinha estado em um hotel, mas que ninguém sabia de seu paradeiro e que quando foi ao Hotel La Porta só encontrou nomes como (repare que são de poetas):Andrade Muricy, Tasso, Alceu, Alphonsus, Abelardo, Raymundo, Roger. Cascaes afirma ao delegado que estas coisas misteriosas são típicas, são tudo coisas desta Ilha misteriosa e embruxada."(p.94) O comissário Várzea e o escrivão Virgílio continuaram suas buscas, falam com o motorista do caminhão-do-lixo Santos Lostada, mas nada encontraram. O menino Ernani, certo dia, quando lia Broquéis, de Cruz e Sousa, viu passar uma bruxa enorme de cinco cabeças, ela deu um vôo rasante pela Praça XV e se perdeu pelos lados da Ponte Ercílio Luz. Lembrou-se do professor Franklin: Neste mundo absconso, como disse o Poeta, há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia."(p.95) Neste conto, Franklin Cascaes participa, como personagem, de vários relatos. Mistério no Miramar, de Salim Miguel, aparenta ingredientes policiais, concentrado num corpo misterioso recolhido nas águas junto ao Miramar. Há um sutil refinamento que aponta para prodigiosa riqueza intertextual dos nomes das personagens, a partir dos traços essenciais de Franklin Cascaes, da figura de JCS (João da Cruz e Sousa) e do seu círculo de amigos: Virgílio Várzea, Araújo Figueredo, Santos Lostada, Oscar Rosa, Luís Delfino (alguns desdobrados), seus pais Carolina e Guilherme e suas amadas Pedra e Gavita, além da angelical Julieta (dos Santos), aos quais se somam os admiradores e estudiosos do Cisne Negro: Nestor (Vítor), Andrade Muricy, Tasso (da Silveira), Alphonsus (de Guimaraens), Abelardo (Montenegro), Raymundo (Magalhães), Roger (Bastide). 4.13 -O FOLHETO Silveira de Souza Tema central: Bruxas desenham, em uma aparição feérica, o apavorado perguntador' da cidade. Tudo aconteceu no final dos ano 50 ou início dos anos 60, não lembro muito bem."(p.97) O narrador possui uma pequena gráfica e leciona matemática para sobreviver. O amigo Maurício apareceu com a idéia de fazer um folheto de 16 páginas sobre as bruxas de Franklin, imprimiriam 200 exemplares e rachariam a venda. O narrador lecionava no mesmo colégio do professor Franklin e em um intervalo de aula apresentou seu projeto e emprestou algumas de suas anotações e passou o endereço de um amigo, o Zeferino, de Pontas das Canas. Mas o senhor, professor Franklin, acredita em bruxas? Eu acredito na mente das pessoas, que cria tudo o que elas acreditam. (.) meu trabalho é o de apenas anotar as histórias que esse povo conta."(p.99) Maurício achou ótimas as histórias e a idéia de visitar no sábado à tarde o Zeferino, mas o narrador foi sozinho, pois seu amigo foi para Curitiba. Zeferino era um homem simples que recebeu muito bem o entrevistador, o problema foi que começou a cair uma chuva forte. O senhô vai ficá nesta casa até a chuva passá, mesmo que dure três dia falou Zeferino."(p.101) A conversa dentro da casa foi trivial até que Zeferino foi perguntado sobre duas réstias de alho penduradas na parede da sala e sua esposa informou que eram proteção contra as bruxas e que ele deveria ficar também com um dente de alho. Relataram ao narrador que o filho deles, o menino Pedro, já estivera embruxado e que dona Luiz Benzedera conseguira salvá-lo com uma reza assim: Treze raio tem o sóli/treze raio tem a lua./Sarta diabo pro inferno/ qu'esta alma não é tua./tosca marosca, rabo de rosca/ (.) (p.103 A conversa seguiu até a hora de dormirem e a noite foi de pernilongos e já pelas cinco e meia da manhã o narrador estava de pé. Ele se despediu e foi pelo lado da praia e pelo caminho encontrou uma baleeira com um abrigo e ficou aterrorizado ao ver "três velhotas dentro da baleeira, muito altas, magras e feias, que fingiam remar remos invisíveis e faziam uma tremenda algazarra. Um pouco adiante, a dois passos da baleeira, numa árvore enorme e de tronco grosso, outra velhota do mesmo tipo ia e vinha, sentada num balanço preso por cordas trançadas e amarradas a um dos galhos."(p.105) As bruxas ameaçaram: Lá vai o istepô de bundinha branca! Tá dizendo por aí que vai falá da gente! (.) Vamo enfiá um remo no rabo desse maroto!"(p.105) O folheto nunca foi publicado, Maurício não voltou de Curitiba e só agora, anos mais tarde, Silveira de Souza confessa ter coragem de contar o ocorrido e reza para que ninguém acredite. • (Ver Menos)

  8. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • O PRESÉPIO, de Adolfo Boos Jr. • Narrativa: • O moço reclama que todos os dias colocava Jesus • sobre uma árvore e de manhã ele estava • novamente na manjedoura. • Alguém lembra que se o Professor Cascaes fosse • vivo... ai deles. • OBSERVAÇÕES: • Neste conto, o processo é mais importante do que o processado, talvez exatamente porque está ausente a figura de Cascaes. • Distante modelo original perdido, o criador sempre insiste na renovação, e todos exigem seu direito de opinião "estética",como em futebol todos se julgam técnicos. • UMA NOITE DE PROFUNDA INSÔNIA, de Amilcar Neves Tema central: Bruxas são erotizadas na maternidade de seres imaginários. Foi numa sexta-feira, numa noite de profunda insônia solitária."(p.29) O narrador diz que mora ocasionalmente na Ilha 19 e que encontrou seu vizinho que mora na Ilha Júlio Moura, 31, o primeiro é solteiro e o segundo, Franklin Cascaes, é casado e eles estão nos distantes anos 60 ou setenta. A rua está deserta, um ou outro cachorro perdido e os dois se encontram e caminham despreocupados até a Lagoinha do Jacaré do Rio Tavares onde acredita-se ser uma "maternidade tatarina",um "ninho de boitatás".A noite é perfeita e o Franque declama uma quadrinha: Ilha das velhas faceiras E, também, das moças prosas As bruxas dos teus encantos São lindas que nem as rosas Confessa o narrador acreditar que as bruxas da Ilha são absolutamente horríveis e Mestre Francolino afirma: Quase isso. Na verdade, apenas metade desse pessoal todo é que insiste em atestar que as bruxas são do jeito que descreveres. Apenas aquela metade diretamente interessada no assunto: as mulheres, as nossas mulheres, que temem a concorrência imbatível."(p.32) Logo avistam um grupo de mulheres, que abanam o rabo para o vizinho do narrador: Franculino, meu lobisomenzinho de estimação!"(p.32) Uma linda bruxa negra aproxima-se, dá um beijo em Cascaes, nota o narrador que todos estão nus. Ao retornarem para casa, pela Mauro Ramos, fala Franklin: A vida é assim mesmo, meu jovem amigo. Por diversos motivos não temos como compartilhar com os outros os nossos melhores momentos. Nem mesmo sendo um escritor de ficção: primeiro porque ninguém vai acreditar em ti e, se tiveres a intenção de falar a sério ,corres um riso considerável de ver a tua reputação arruinada sem remédio."(p.33) Neste conto, o autor reconstrói um encontro com o próprio Franque, colocando em xeque variadas questões: Bruxa existe ou não? Escritor terá "a intenção de falar sério"?O que é a verdade? A ficção engloba personagens reais, ou a realidade se compõe de personagens ficcionais? Criador e criatura podem conviver? 4.3 HISTÓRIA PRAIANA EGLÊ MALHEIROS Tema central: Bruxas assumem a condição de mulher autônoma no patriarcado das famílias, então, quem se rebela é bruxa? Partos a termo tinham sido doze, criou cinco."Docelina é mulher de pescador, está casada há 20 anos, já passou muita fome, está feia, pelancuda e seu marido é absolutamente controlador: não permite modernices',como ir ao Posto de Saúde e ele é o guardião do título de eleitor desta mulher sofredora. Ele, o marido, chamado Armando, é dado à bebedeiras, bailões e bate na esposa. Entretanto, nos últimos tempos, aos sábados, Docelina tem comparecido ao posto de saúde para umas palestras sobre a valorização da mulher e seu trabalho. À noite, os homens comentam no bar que as bruxas estavam virando a cabeça das mulheres; diz um dos homens: Bruxas é que elas são. Aquele professor da Escola de Artífices, que vivia escutando essas histórias, devia sair do túmulo para conhecer as verdadeiras, as dele não assustam mais ninguém."(p.38) "Tudo culpa das bruxas que vieram da cidade bagunçar as idéias de nossas mulheres. A Docelina ontem me enfrentou, se eu for para o bailão e encher a cara ela vai embora; pior, vai querer abrir inventário da herança do pai e pedir sua parte no terreno."(p.38) Armando afirma gritando "Os da antiga tinham razão, bruxas, bruxas, existem e são de assustar."(p.39) Enfim, Eglê Malheiros, retrata neste conto Docelina e seus 12 filhos, reduzidos a cinco, ou a quatro e meio, consolando-se com seus "anjinhos, almas puras",sem deixar, porém, de refletir "por que só filho de pobre vira anjinho?"Enquanto as "modernices" a aliciam, seu marido Armando lança a contrapartida: nessas "modernices" estão as "bruxas",da pior espécie",como diria, se presente estivesse, Aquele professor da Escola de Artífices! Certamente ficaria estarrecido. 4.4 O "MINHA QUERIDA" Fábio Brüggemann Tema central: Antiga embarcação como pretexto para a realidade paralela. O rapaz estava começando a se despedir de uma vida muito dura de garçom .Agora, além de dar adeus ao "Minha Querida",não tem que adivinhar mais, pela cara, roupa e conversa do freguês, o quanto será a féria, extraída dos mal contados dez por cento, no fim da noite, às vezes começo da manhã".(p.41)".Não precisaria mais comprar terno de brechó, podia dar adeus às lojas de um e noventa e nove onde comprava a decoração de sua casa depois que os pais morreram no naufrágio do "Amália";aliás, após a morte da esposa do armador, ele comprara um novo barco com o nome "Minha querida Amália",mas pouco depois, casou-se novamente e mudou o nome para "Minha Querida".Mas o que deixava nosso jovem mais feliz com sua nova vida era não passar mais em frente ao cemitério que ele jurava ter visto assombrações. Um dia, quando ainda trabalhava no restaurante, chegou para jantar o seu Francolino."(p.43) O garçom pediu para o patrão apresentá-lo ao professor que ouviu a história do rapaz e achou graça, mas afirmou que iria até o cemitério para mostrar a farsa das almas penadas. Seu Francolino mostrou que "o barulho era de uma árvore que balançava quando havia vento e raspava os galhos no muro. E a imagem era a sombra da mesma árvore no mesmo muro branco, iluminada pela mesma luz de um poste."(p.44) Depois da explicação, o professor foi embora e o rapaz foi com uma moça ao cemitério e visitaram uma lápide bem iluminada pela mesma luz que assombrava o muro e acharam a inscrição: aqui jaz Amália Rodrigues da Silva (1921-1974)" (p.44) O rapaz concluiu que era a dona Amália do Minha Querida, e no sábado seguinte comprou o bilhete 1921 e ficou rico. Mudou de vida, casou-se com a moça, e agora vai todos os sábados ao túmulo de dona Amália, que nasceu, para a sorte do rapaz, em 1921. Examinada criticamente a história do marido de Amália (no naufrágio do "Amália"), insinua-se a história do cemitério assombrado, quando o seu Francolino mais desfaz crendices do que recolhe causos. 4.5 DOIS BANDOLINS Flávio José Cardozo Tema central: A memória da coisa vivida (a ausência crônica da mulher, Elisabeth). Amanhã não venho trabalhar",o professor disse ao auxiliar Peninha no final do expediente, amanhã. tu bem sabes."e as palavras pararam, mas nem foi preciso dizê-las: Peninha botou a mão no ombro dele e bastou isso para mostrar que se lembrava muito bem de que amanhã, 30 de abril, eram mai um aniversário da morte de Dona Beth".(p.47) O professor dormiu pensando em passar aquele dia especial entre seus desenhos, escritos, esculturas e os crochês, músicas e flores de sua amada falecida mulher que adorava tocar uma modinha de bandolim quando viva e moradores daquela mesma casa da Júlio Moura. Nas o professor decidiu que seria melhor trabalhar no Museu, lá Beth seria mais viva. O dia foi normal e após o expediente, o professor saiu sem pressa com seu TL verde. À noite, sua fiel empregada Ana pôs a mesa, ele sentou no sofá e começou a pensar em bruxas: a Irinéia das Dores, a Virgilina e as três filhas, Demetra, Canda Mandioca, Nica Besuga, Sinhá Bidica e outras. Pelas onze e meia ouviu sons, sim era música. e de bandolim! Foi para fora de casa ver o que era. Quem tocava o instrumento não era Beth. Seca como um longo graveto, murcha e feia que nem os sete pecados capitais, quem tocava o bandolim não era Beth, não, diabolicamente não, quem tocava não era outra senão a bruxa bandolinista da Orquestra Selenita Bruxólica que certa noite, conforme o professor numa andança pela Ilha e depois fixou numa de suas histórias assombrosas, apareceu ao pescador Geraldo Sem Medo no Retiro da Lagoa."(p.50) A bruxa horrorosa gritava para que Franklin esquecesse sua Beth, que ela estava morta. O professor não sabia se invoca contra a megera segredos exorcísticos ou deixava a bruxa ali mesmo. Optou pela segunda. Quando entrou em casa apareceu-lhe sua amada esposa, tocando a Ave-Maria de Schubert em seu bandolim. Um vento, um bafo, pela Júlio Moura afora foi aquele desarvorado vôo de bruxa, sobre o qual o professor, discreto, nunca escreveu que um outro curioso por casos raros o fizesse."(p.51) Enfim, em tom poético, sensual e transfigurador, o conto restitui-nos um dia de ausências, saudades, revivências de um Cascaes de certa forma já desprendido do solo rude e entremostrando dimensões sublimadas, nos seus amores com Beth, amores que, se foram estéreis em relação a filhos, multiplicaram-se na afeição mútua, a ponto de, falecida ela, somente salvá-lo da solidão o "bendito Museu da Universidade",nesses "quatro anos sem Beth e sempre com ela",cena plenificada com a bruxa bandolinista sublimada e fundida na "soberana" Beth, bandolim silencioso na mão direita".4.6 BRANCO ASSIM DA COR DA LUA Jair Francisco Hamms Tema central: A memória de uma infância, na Ilha antiga, encontra áreas de profundidade humana. Sabe quem morreu? O Orlandinho, filho da dona Zenilda. (.) O seu Orlando saiu agorinha para comprar um caixãozinho. Ele e o professor Franklin Cascaes, que assim que soube, correu para lá. (.) O Orlandinho por quem a mamãe lamentava era albino."(p.54) Este menino viveu seus poucos 11 anos sofrendo, ora contra a bronquite, ora com asma. Era filho do negro Orlando da Purificação e da dona Zenilda, linda negra. O narrador que confessa ter sido seu vizinho, conta das perseguições ao menino, inclusive quando o chamavam de "barata descascada" e na escola Orlandinho não saía para o recreio para não ser mais humilhado ainda e ficava desenhando. Certo dia apareceu a professora dona Florentina com um homem até então desconhecido, era o professor Franklin Cascaes, que viera conhecer o Orlandinho e seus desenhos. O professor ficou muito impressionado com a qualidade dos desenhos e prometeu matricular o menino na escola particular da professora Jurema Cavallazzi e no ano seguinte na Escola Industrial onde ele lecionava. Pela primeira vez o menino sorria e parecia feliz. A escola era longe e quando o menino se cansava seu pai o levava no cangote. Na hora do recreio, Orlandinho desenhava os colegas ou heróis dos quadrinhos e era um sucesso. Mas esta felicidade só durou três meses, pois no dia 10 de julho, Orlandinho morria, vítima de insuficiência respiratória. O narrador descreve a sala e os que estão no velório como o Tércio da Gama e o Adolfo Boos e a parteira dona Vicentina e lembra que foi ali, há pouco mais de 11 anos, ali mesmo, num quartinho ao lado da sala, à luz de um lampião, fora a primeira pessoa a ver e a segurar aquele menininho branco branco branco, branco assim da cor da lua'.(p.57) O escritor, em cena de bastante intimismo poético, concentrada na morte do menino Orlandinho, filho da negra dona Zenilda, Branco assim da cor da lua, fazendo várias "personagens",além de Cascaes (de ares ponderados e humanitários), transitarem do real para a ficção: Tércio da Gama, Adolfo Boos, o próprio autor-narrador -todos "rapazes pequenos",moradores a Rua Bocaiúva, há décadas passadas. 4.7 O ABENÇOADO Júlio de Queiroz Tema central: Conjuração de bruxas que amaldiçoam a moderna medicina. Malina olhou ao longe. Há mil anos que venho recomendando a Pestina para aprender a chegar na hora combinada. Peste de bruxa que sempre se atrasa! comentou com o gato preto empoleirado no seu ombro esquerdo."(p.59) As bruxas começaram a se reunir, algumas contando as malvadezas que estavam aprontando. Ao total eram sete, como deveria de ser. Malina, convocando as bruxas, apresenta o motivo da convocação daquela reunião: com essa história de progresso, de médicos aos montes e uma farmácia em cada canto e em cada farmácia mil remédios para tudo, nós estamos ficando mais que desmoralizadas."(p.60) As bruxas concordam e apresentam exemplos de jovens que não acreditam mais em benzeduras e que preferem buscar a solução médica. Decidem então, que na próxima reunião, trarão soluções para o problema. Uma lua depois, caindo um Vento Sul fortíssimo, as bruxas começaram a chegar. Malina não foi a primeira, mas também não foi a última. Como só faltava a Pestina, Malina deu a sessão por aberta e quis saber o que é que suas irmãs haviam elaborado."(p.61) Pestina chega toda alvoroçada e diz que se atrasou porque viu em um lugarejo chamado São José um marido e uma mulher "querendo fazer aquelas coisas" (p.62) e que estavam lá três fadas disfarçadas de rolinhas e estavam abençoando o fruto daquele amor, afirmando que nasceria um menino no dia 16 de outubro de 1908, que chamar-se-ía Franklin e que ele preservaria a cultura daquele lugar, bem como as histórias de bruxas. Uma das bruxas apressou-se em dizer que era necessário matarem o menino, mas Malina, a bruxa chefe diz: Não seja burra!.A gente não queria ser lembrada? Pois aí está o menino que vai cuidar para que a gente não morra na memória das pessoas."(p.63) As outras bruxas concordaram e cada uma foi embora para seu destino. Então, este conto acaba colocando em foco um autêntico congresso bruxólico, com o objetivo de se tomarem resoluções eficazes para deter o crescente descrédito com que as bruxas vêm sendo tratadas, tudo "culpa do tal de progresso",bem como projetando, entrementes, as malignidades por elas forjadas, a bruxa Pestina relata cena ocorrida em São José, onde três fadas comentavam a concepção e o nascimento futuro de um menino que registrará todas as estórias, lendas, costumes, bruxas e bruxedos da região. 4.8 AO ENTRARDECER Maria de Lourdes Krieger Tema central: Pesca de arrastão como retrato antropológico "A chuva bate nas costas desnudas dos pescadores a puxarem os cabos da rede do arrastão."(p.65) Veranistas pedem por peixes, assim como Onofre, pescador já velho, mas que atua como olheiro em busca de cardumes. Ele não gostava muito das mudanças que trazia o verão: turistas, os corpos desnudos, o alarido e os costumes estranhos e seu amigo avisa que aquela destruição toda traria sérias conseqüências. Este amigo aparecia sempre com folhas de papel e lápis numa pasta de couro e com ele Onofre aprendeu a valorizar o chão em que vivia. O alvoroço da chegada das embarcações termina e Onofre agora volta a procurar cardumes e lembra de seu amigo Franklin:"vejam os manguezais."(p.67) e El sorri, pois sabe que este amigo deve estar contando histórias fantásticas para aquela a quem ele rendia homenagens: Nossa Senhora do Desterro. Este conto condensa uma cena ou instantâneo na vida praieira: a chegada dos pescadores com seu escasso produto, que é vendido para a divisão dos lucros, enquanto o "olheiro" Onofre lembra o amigo (não será preciso dar seu nome!) que tanto advertira sobre mudanças nefastas do progresso sobre essa ilha "embruxada pelo capitalismo e pelos gananciosos".4.9 O DIÁRIO DA VIRGEM DESAPARECIDA Olsen Jr. Tema central: A mulher é bruxa quando se emancipa "Tenho o hábito de recortar matérias de jornal que possuam qualquer coisa de singular, inusitado, insólito, original, curioso, enfim, algo capaz de compor a natureza humana além da mesmice cotidiana."(p.69) O narrador conta que leu uma manchete na véspera do Natal de 1978 Adolescente desaparece sem deixar vestígios ela era uma estudante na lagoa da Conceição e o pai, indignado, afirmava que a filha tinha sumido na mesma data que um estranho gringo fizera também o mesmo. A história não teria nada de especial, mas dez dias depois foi apresentado um diário, pela amiga da jovem que desaparecera. Este diário chamou a atenção do narrador que foi até a casa da moça e pediu uma entrevista com a mãe. Conseguiu ele ver a caderneta, mas não havia como emprestá-la e ele resolveu copiar as informações, cerca de dezessete anotações de página e meia cada, com apenas uma data: dia 4 de novembro. Quando já havia terminado, chega o pai da moça, aparentemente embriagado e joga a caderneta no fogo, afirmando tratar-se de um ritual para libertar a filha do embruxamento ou como dizia o professor Franklin Cascaes, do fado bruxólico. Descobre-se então que o nome do gringo era Raphael Constanzo Flores, alto, moreno, espadaúdo, gostava de fazer pães e era vizinho da moça. Ele havia decidido ser professora e com o tempo, aproximou-se naturalmente do jovem e a amizade transformou-se em paixão. Um dia acontece o inevitável e os dois fazem amor. No mês seguinte, a menstruação não veio e Raphael não se mostrou surpreso e acertou que os dois iriam para Curitiba. No dia 04 de novembro ela recebe uma folha de jornal com uma edição especial a respeito de Franklin Cascaes. Ela lê a notícia e vê o desenho de uma galinha choca. A reportagem apresentava informações sobre as bruxas da ilha: que elas tinham uma vida melhor se comparadas àquelas perseguidas pela Inquisição e que todas elas acreditavam que podiam voar, que possuíam poder sobrenaturais, poderes de curar, matar, de mudar as condições climáticas."também se ufanavam de ter relações sexuais com os demônios íncubos e súcubos. ncubo (por cima) e súcubo (por baixo). Os demônios se transformavam oram em homem (íncubo) oram em mulher (súcubo). Para a transformação o demônio deveria roubar o esperma humano, o que conseguia durante o sono, através da masturbação. As bruxas reclamavam que este esperma era muito frio, que eles tinham um membro muito ereto, mas sem sabor, porque frio."(p.75) A mesma reportagem ainda fala sobre uma galinha que perseguiu um pescador e ele bateu nela, quebrando-lhe o braço e no outro dia apareceu Merência, com uma tipóia no braço. Então deram um surra naquela mulher e lhe jogaram água e sal, para tirar o fado bruxólico. Depois disso, a moça tem alguns sonhos com bruxas e decide pela sua fuga na véspera do Natal. O diário terminava ali, Ah! Quase esqueço! O filho da Sibele (este é o nome da moça que fugiu) com Raphael, um rapaz moreno de olhos verdes chama-se Nathan, tem quase vinte e cinco anos, cursa engenharia e até acha graça quando associam o seu nascimento a um forte cheiro de enxofre no ar, é o sinal dos tempos, afirma, embora hoje ninguém acredite mais em bruxas; mas que elas existem, existem."(p.77) Assim, retomando em boa ótica a crendice bruxólica nesta Ilha da Magia, bem como um fato nada estranho às tradições açorianas (a fuga -rapto de adolescente), um caso de "fado bruxólico" se corporifica no sintético diário, astuciosamente reconstituído por ardis do narrador, que vai desfiando os fios dessa meada de aparência policialesca. 4.10 TALVEZ A PRIMEIRA E ÚLTIMA CARTA Péricles Prade Tema Central: Uma oitava filha' interpela Franklin e advoga sua condição de não-bruxa. O conto, em modelo de carta começa assim: Desterro, 14 de março de 1983. Seu Franklin."(p.79) A moça chamada Benta diz-se indignada, pois após uma afirmação em "Bruxas Gêmeas",conto do livro "O Fantástico na Ilha de Santa Catarina" datado de 1950 ela tem passado por bruxa, apesar de nunca ter feito nenhum mal a ninguém e que seu único gostinho é ficar nua, assim como gostam as bruxas quando é sábado. Benta relata que é gêmea de Santa e que seus pais já tinham seis filhos e que todos sabem que quando nasce o sétimo, se for menina, será bruxa. Seu pai, quando soube que a parteira, Custódia do Chico Pelego, esqueçera de marcar quem era a sétima, para chamar de Benta e livrá-la do mal, decidiu recorrer a Candinha Miringa, benzedeira e curandeira, mas de nada adiantou, pois seu Manoel Braseiro, não sabia responder quem era a filha bruxa. A benzedeira, então, pediu ajuda de Lúcifer, seu chefe. O problema é que Belzebu apontou Benta como bruxa e como ele sabia que ninguém acreditava nele, acabaram por desfazer o mal em Santa, o que de nada adiantou. Ao final, Benta acha graça da armadilha do demo e pede que o Sr. Cascaes mude o seu texto, caso contrário "Se até amanhã, dia 15, eu não for atendida, mudando o que deve ser mudado, morrerá para jamais voltar a cometer equívocos dessa natureza. E para aprender que não só as bruxas fazem mal."(p.81) O criador (ou compilador) não fugia do poder das criaturas! 4.11 NOITES DE ENCANTAMENTO Raul Caldas Filho Tema central: Relacionamento animoso e amoroso entre a antropóloga incrédula e o defensor do que é nativo. Um menino ouve, na noite que avança, histórias fantásticas de monstros, bruxas lobisomens até que sua mãe ordena que ele vá dormir. O menino brinca de modelas na areia aquelas noites de encantamento, ele é Franklin, 10 anos. Após um mês da morte de Franklin Cascaes em maio de 1983, Ricardo recebeu um telefonema de uma jornalista carioca querendo uma entrevista sobre nosso professor Seu nome era Natasha, uma bela mulher, de seios pontudos e corpo esguio. Ricardo levou-a até o Museu para apresentar as pinturas, desenhos, livros, pequenas esculturas de cerâmica e falou sobre as velhas crenças açorianas e principalmente sobre bruxas e como elas nascem. Natasha parecia desdenhar das histórias e Ricardo acha que ela é uma "racionalista-cartesiana, chata e presunçosa."(p.85) e quanto mais conhecia do trabalho de Cascaes mais ela achava tudo aquilo crendice de baixo extrato, sem o menor valor para antropologia. Ricardo lembrou-se de Sinhá Vitelina, uma velha curandeira e levou Natasha para conhecê-la. A velha afirmou: bruxaria é a maldade que ainda domina o mundo e se aloja na cabeça das pessoas. É o ódio, a inveja, o despeito, a luxúria, a violência, a maledicência."(p.86) Natasha e Ricardo voltaram para o carro e ficaram um bom tempo sem falar. Ela pediu que ele parasse em uma enseada, às margens da baía Sul. Começaram a trocar carícias mais que picantes e foram caminhar por um descampado. Natascha interrompeu Ricardo e disse: Meus pais vieram da Ucrânia para o Brasil, fugindo dos horrores da Segunda guerra Mundial. Estabeleceram-se no Rio de Janeiro e tiveram sete filhas. Eu fui a sétima. Interrompeu-se mais uma vez e acrescentou, enigmática: sou então uma bruxa."(p.87) Noites de encantamento, de Raul Caldas Filho, confirma que bruxas não povoam apenas a Ilha de Santa Catarina, pois, cerca de um mês após a morte de Cascaes, veio à Ilha Natasha, sétima filha de um casal que viera ao Rio de Janeiro, fugindo dos horrores da Segunda Guerra Mundial na Ucrânia. E veio com todos os direitos. 4.12 MISTÉRIO NO MIRAMAR Salim Miguel Tema central: A imaginação tem memórias "Atravessou correndo a Praça, ofegante e trêmulo entrou na cozinha adentro, onde a mãe preparava o café, e mal conseguiu murmurar: Ma-mãeo-cor-po-o-som."(p.89) O menino contou que estava no Miramar e viu um corpo e uma voz insistindo para ele falar com o Franklin. O corpo foi levado ao necrotério e o Dr. Luís Delfino vai fazer a autópsia e já no outro dia os jornais noticiavam "MISTÉRIO NO MIRAMAR. Ninguém sabia quem era o homem que estava sem dinheiro, documentos, apenas um lenço no bolso e uma pasta de couro, com as letras JCS, amarrada ao pulso. O pai e o menino foram até a delegacia, pois o pai conhecia o comissário Várzea. O garoto recontou o que ouviu sobre falar com o Franklin e Virgílio, o escrivão, disse que havia o professor da Escola Industrial. O professor não sabia de nada, apesar do menino Ernani ouvir seu nome e o cadáver possuir um desenho que poderia ser seu. Subitamente Cascaes revela que alguns dias atrás um homem lhe fizera um pedido estranho de um desenho: suas bruxas, com inteira liberdade, a única exigência é nas caras, uma deve lembrar Cruz e Sousa, outra a noiva Pedra, a terceira a esposa Gavita, a quarta, com cinco cabeças: Julieta, Carolina, Cruz, Gavita, Pedra."(p.93) Franklin explicou que o rapaz só buscou o primeiro desenho e quando Ernani viu o segundo desenho tomou um susto, dizendo que era aquele ser que o perseguiu no Miramar. Também lembrou-se nosso professor que o nome do indivíduo era João, que tinha estado em um hotel, mas que ninguém sabia de seu paradeiro e que quando foi ao Hotel La Porta só encontrou nomes como (repare que são de poetas):Andrade Muricy, Tasso, Alceu, Alphonsus, Abelardo, Raymundo, Roger. Cascaes afirma ao delegado que estas coisas misteriosas são típicas, são tudo coisas desta Ilha misteriosa e embruxada."(p.94) O comissário Várzea e o escrivão Virgílio continuaram suas buscas, falam com o motorista do caminhão-do-lixo Santos Lostada, mas nada encontraram. O menino Ernani, certo dia, quando lia Broquéis, de Cruz e Sousa, viu passar uma bruxa enorme de cinco cabeças, ela deu um vôo rasante pela Praça XV e se perdeu pelos lados da Ponte Ercílio Luz. Lembrou-se do professor Franklin: Neste mundo absconso, como disse o Poeta, há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia."(p.95) Neste conto, Franklin Cascaes participa, como personagem, de vários relatos. Mistério no Miramar, de Salim Miguel, aparenta ingredientes policiais, concentrado num corpo misterioso recolhido nas águas junto ao Miramar. Há um sutil refinamento que aponta para prodigiosa riqueza intertextual dos nomes das personagens, a partir dos traços essenciais de Franklin Cascaes, da figura de JCS (João da Cruz e Sousa) e do seu círculo de amigos: Virgílio Várzea, Araújo Figueredo, Santos Lostada, Oscar Rosa, Luís Delfino (alguns desdobrados), seus pais Carolina e Guilherme e suas amadas Pedra e Gavita, além da angelical Julieta (dos Santos), aos quais se somam os admiradores e estudiosos do Cisne Negro: Nestor (Vítor), Andrade Muricy, Tasso (da Silveira), Alphonsus (de Guimaraens), Abelardo (Montenegro), Raymundo (Magalhães), Roger (Bastide). 4.13 -O FOLHETO Silveira de Souza Tema central: Bruxas desenham, em uma aparição feérica, o apavorado perguntador' da cidade. Tudo aconteceu no final dos ano 50 ou início dos anos 60, não lembro muito bem."(p.97) O narrador possui uma pequena gráfica e leciona matemática para sobreviver. O amigo Maurício apareceu com a idéia de fazer um folheto de 16 páginas sobre as bruxas de Franklin, imprimiriam 200 exemplares e rachariam a venda. O narrador lecionava no mesmo colégio do professor Franklin e em um intervalo de aula apresentou seu projeto e emprestou algumas de suas anotações e passou o endereço de um amigo, o Zeferino, de Pontas das Canas. Mas o senhor, professor Franklin, acredita em bruxas? Eu acredito na mente das pessoas, que cria tudo o que elas acreditam. (.) meu trabalho é o de apenas anotar as histórias que esse povo conta."(p.99) Maurício achou ótimas as histórias e a idéia de visitar no sábado à tarde o Zeferino, mas o narrador foi sozinho, pois seu amigo foi para Curitiba. Zeferino era um homem simples que recebeu muito bem o entrevistador, o problema foi que começou a cair uma chuva forte. O senhô vai ficá nesta casa até a chuva passá, mesmo que dure três dia falou Zeferino."(p.101) A conversa dentro da casa foi trivial até que Zeferino foi perguntado sobre duas réstias de alho penduradas na parede da sala e sua esposa informou que eram proteção contra as bruxas e que ele deveria ficar também com um dente de alho. Relataram ao narrador que o filho deles, o menino Pedro, já estivera embruxado e que dona Luiz Benzedera conseguira salvá-lo com uma reza assim: Treze raio tem o sóli/treze raio tem a lua./Sarta diabo pro inferno/ qu'esta alma não é tua./tosca marosca, rabo de rosca/ (.) (p.103 A conversa seguiu até a hora de dormirem e a noite foi de pernilongos e já pelas cinco e meia da manhã o narrador estava de pé. Ele se despediu e foi pelo lado da praia e pelo caminho encontrou uma baleeira com um abrigo e ficou aterrorizado ao ver "três velhotas dentro da baleeira, muito altas, magras e feias, que fingiam remar remos invisíveis e faziam uma tremenda algazarra. Um pouco adiante, a dois passos da baleeira, numa árvore enorme e de tronco grosso, outra velhota do mesmo tipo ia e vinha, sentada num balanço preso por cordas trançadas e amarradas a um dos galhos."(p.105) As bruxas ameaçaram: Lá vai o istepô de bundinha branca! Tá dizendo por aí que vai falá da gente! (.) Vamo enfiá um remo no rabo desse maroto!"(p.105) O folheto nunca foi publicado, Maurício não voltou de Curitiba e só agora, anos mais tarde, Silveira de Souza confessa ter coragem de contar o ocorrido e reza para que ninguém acredite. • (Ver Menos)

  9. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • O PRESÉPIO, de Adolfo Boos Jr. • Observações: • Neste conto, o processo é mais importante do que o • processado, talvez exatamente porque está ausente • a figura de Cascaes. • Distante modelo original perdido, o criador sempre • insiste na renovação, e todos exigem seu direito de • opinião "estética",como em futebol todos se julgam • técnicos. • UMA NOITE DE PROFUNDA INSÔNIA, de Amilcar Neves Tema central: Bruxas são erotizadas na maternidade de seres imaginários. Foi numa sexta-feira, numa noite de profunda insônia solitária."(p.29) O narrador diz que mora ocasionalmente na Ilha 19 e que encontrou seu vizinho que mora na Ilha Júlio Moura, 31, o primeiro é solteiro e o segundo, Franklin Cascaes, é casado e eles estão nos distantes anos 60 ou setenta. A rua está deserta, um ou outro cachorro perdido e os dois se encontram e caminham despreocupados até a Lagoinha do Jacaré do Rio Tavares onde acredita-se ser uma "maternidade tatarina",um "ninho de boitatás".A noite é perfeita e o Franque declama uma quadrinha: Ilha das velhas faceiras E, também, das moças prosas As bruxas dos teus encantos São lindas que nem as rosas Confessa o narrador acreditar que as bruxas da Ilha são absolutamente horríveis e Mestre Francolino afirma: Quase isso. Na verdade, apenas metade desse pessoal todo é que insiste em atestar que as bruxas são do jeito que descreveres. Apenas aquela metade diretamente interessada no assunto: as mulheres, as nossas mulheres, que temem a concorrência imbatível."(p.32) Logo avistam um grupo de mulheres, que abanam o rabo para o vizinho do narrador: Franculino, meu lobisomenzinho de estimação!"(p.32) Uma linda bruxa negra aproxima-se, dá um beijo em Cascaes, nota o narrador que todos estão nus. Ao retornarem para casa, pela Mauro Ramos, fala Franklin: A vida é assim mesmo, meu jovem amigo. Por diversos motivos não temos como compartilhar com os outros os nossos melhores momentos. Nem mesmo sendo um escritor de ficção: primeiro porque ninguém vai acreditar em ti e, se tiveres a intenção de falar a sério ,corres um riso considerável de ver a tua reputação arruinada sem remédio."(p.33) Neste conto, o autor reconstrói um encontro com o próprio Franque, colocando em xeque variadas questões: Bruxa existe ou não? Escritor terá "a intenção de falar sério"?O que é a verdade? A ficção engloba personagens reais, ou a realidade se compõe de personagens ficcionais? Criador e criatura podem conviver? 4.3 HISTÓRIA PRAIANA EGLÊ MALHEIROS Tema central: Bruxas assumem a condição de mulher autônoma no patriarcado das famílias, então, quem se rebela é bruxa? Partos a termo tinham sido doze, criou cinco."Docelina é mulher de pescador, está casada há 20 anos, já passou muita fome, está feia, pelancuda e seu marido é absolutamente controlador: não permite modernices',como ir ao Posto de Saúde e ele é o guardião do título de eleitor desta mulher sofredora. Ele, o marido, chamado Armando, é dado à bebedeiras, bailões e bate na esposa. Entretanto, nos últimos tempos, aos sábados, Docelina tem comparecido ao posto de saúde para umas palestras sobre a valorização da mulher e seu trabalho. À noite, os homens comentam no bar que as bruxas estavam virando a cabeça das mulheres; diz um dos homens: Bruxas é que elas são. Aquele professor da Escola de Artífices, que vivia escutando essas histórias, devia sair do túmulo para conhecer as verdadeiras, as dele não assustam mais ninguém."(p.38) "Tudo culpa das bruxas que vieram da cidade bagunçar as idéias de nossas mulheres. A Docelina ontem me enfrentou, se eu for para o bailão e encher a cara ela vai embora; pior, vai querer abrir inventário da herança do pai e pedir sua parte no terreno."(p.38) Armando afirma gritando "Os da antiga tinham razão, bruxas, bruxas, existem e são de assustar."(p.39) Enfim, Eglê Malheiros, retrata neste conto Docelina e seus 12 filhos, reduzidos a cinco, ou a quatro e meio, consolando-se com seus "anjinhos, almas puras",sem deixar, porém, de refletir "por que só filho de pobre vira anjinho?"Enquanto as "modernices" a aliciam, seu marido Armando lança a contrapartida: nessas "modernices" estão as "bruxas",da pior espécie",como diria, se presente estivesse, Aquele professor da Escola de Artífices! Certamente ficaria estarrecido. 4.4 O "MINHA QUERIDA" Fábio Brüggemann Tema central: Antiga embarcação como pretexto para a realidade paralela. O rapaz estava começando a se despedir de uma vida muito dura de garçom .Agora, além de dar adeus ao "Minha Querida",não tem que adivinhar mais, pela cara, roupa e conversa do freguês, o quanto será a féria, extraída dos mal contados dez por cento, no fim da noite, às vezes começo da manhã".(p.41)".Não precisaria mais comprar terno de brechó, podia dar adeus às lojas de um e noventa e nove onde comprava a decoração de sua casa depois que os pais morreram no naufrágio do "Amália";aliás, após a morte da esposa do armador, ele comprara um novo barco com o nome "Minha querida Amália",mas pouco depois, casou-se novamente e mudou o nome para "Minha Querida".Mas o que deixava nosso jovem mais feliz com sua nova vida era não passar mais em frente ao cemitério que ele jurava ter visto assombrações. Um dia, quando ainda trabalhava no restaurante, chegou para jantar o seu Francolino."(p.43) O garçom pediu para o patrão apresentá-lo ao professor que ouviu a história do rapaz e achou graça, mas afirmou que iria até o cemitério para mostrar a farsa das almas penadas. Seu Francolino mostrou que "o barulho era de uma árvore que balançava quando havia vento e raspava os galhos no muro. E a imagem era a sombra da mesma árvore no mesmo muro branco, iluminada pela mesma luz de um poste."(p.44) Depois da explicação, o professor foi embora e o rapaz foi com uma moça ao cemitério e visitaram uma lápide bem iluminada pela mesma luz que assombrava o muro e acharam a inscrição: aqui jaz Amália Rodrigues da Silva (1921-1974)" (p.44) O rapaz concluiu que era a dona Amália do Minha Querida, e no sábado seguinte comprou o bilhete 1921 e ficou rico. Mudou de vida, casou-se com a moça, e agora vai todos os sábados ao túmulo de dona Amália, que nasceu, para a sorte do rapaz, em 1921. Examinada criticamente a história do marido de Amália (no naufrágio do "Amália"), insinua-se a história do cemitério assombrado, quando o seu Francolino mais desfaz crendices do que recolhe causos. 4.5 DOIS BANDOLINS Flávio José Cardozo Tema central: A memória da coisa vivida (a ausência crônica da mulher, Elisabeth). Amanhã não venho trabalhar",o professor disse ao auxiliar Peninha no final do expediente, amanhã. tu bem sabes."e as palavras pararam, mas nem foi preciso dizê-las: Peninha botou a mão no ombro dele e bastou isso para mostrar que se lembrava muito bem de que amanhã, 30 de abril, eram mai um aniversário da morte de Dona Beth".(p.47) O professor dormiu pensando em passar aquele dia especial entre seus desenhos, escritos, esculturas e os crochês, músicas e flores de sua amada falecida mulher que adorava tocar uma modinha de bandolim quando viva e moradores daquela mesma casa da Júlio Moura. Nas o professor decidiu que seria melhor trabalhar no Museu, lá Beth seria mais viva. O dia foi normal e após o expediente, o professor saiu sem pressa com seu TL verde. À noite, sua fiel empregada Ana pôs a mesa, ele sentou no sofá e começou a pensar em bruxas: a Irinéia das Dores, a Virgilina e as três filhas, Demetra, Canda Mandioca, Nica Besuga, Sinhá Bidica e outras. Pelas onze e meia ouviu sons, sim era música. e de bandolim! Foi para fora de casa ver o que era. Quem tocava o instrumento não era Beth. Seca como um longo graveto, murcha e feia que nem os sete pecados capitais, quem tocava o bandolim não era Beth, não, diabolicamente não, quem tocava não era outra senão a bruxa bandolinista da Orquestra Selenita Bruxólica que certa noite, conforme o professor numa andança pela Ilha e depois fixou numa de suas histórias assombrosas, apareceu ao pescador Geraldo Sem Medo no Retiro da Lagoa."(p.50) A bruxa horrorosa gritava para que Franklin esquecesse sua Beth, que ela estava morta. O professor não sabia se invoca contra a megera segredos exorcísticos ou deixava a bruxa ali mesmo. Optou pela segunda. Quando entrou em casa apareceu-lhe sua amada esposa, tocando a Ave-Maria de Schubert em seu bandolim. Um vento, um bafo, pela Júlio Moura afora foi aquele desarvorado vôo de bruxa, sobre o qual o professor, discreto, nunca escreveu que um outro curioso por casos raros o fizesse."(p.51) Enfim, em tom poético, sensual e transfigurador, o conto restitui-nos um dia de ausências, saudades, revivências de um Cascaes de certa forma já desprendido do solo rude e entremostrando dimensões sublimadas, nos seus amores com Beth, amores que, se foram estéreis em relação a filhos, multiplicaram-se na afeição mútua, a ponto de, falecida ela, somente salvá-lo da solidão o "bendito Museu da Universidade",nesses "quatro anos sem Beth e sempre com ela",cena plenificada com a bruxa bandolinista sublimada e fundida na "soberana" Beth, bandolim silencioso na mão direita".4.6 BRANCO ASSIM DA COR DA LUA Jair Francisco Hamms Tema central: A memória de uma infância, na Ilha antiga, encontra áreas de profundidade humana. Sabe quem morreu? O Orlandinho, filho da dona Zenilda. (.) O seu Orlando saiu agorinha para comprar um caixãozinho. Ele e o professor Franklin Cascaes, que assim que soube, correu para lá. (.) O Orlandinho por quem a mamãe lamentava era albino."(p.54) Este menino viveu seus poucos 11 anos sofrendo, ora contra a bronquite, ora com asma. Era filho do negro Orlando da Purificação e da dona Zenilda, linda negra. O narrador que confessa ter sido seu vizinho, conta das perseguições ao menino, inclusive quando o chamavam de "barata descascada" e na escola Orlandinho não saía para o recreio para não ser mais humilhado ainda e ficava desenhando. Certo dia apareceu a professora dona Florentina com um homem até então desconhecido, era o professor Franklin Cascaes, que viera conhecer o Orlandinho e seus desenhos. O professor ficou muito impressionado com a qualidade dos desenhos e prometeu matricular o menino na escola particular da professora Jurema Cavallazzi e no ano seguinte na Escola Industrial onde ele lecionava. Pela primeira vez o menino sorria e parecia feliz. A escola era longe e quando o menino se cansava seu pai o levava no cangote. Na hora do recreio, Orlandinho desenhava os colegas ou heróis dos quadrinhos e era um sucesso. Mas esta felicidade só durou três meses, pois no dia 10 de julho, Orlandinho morria, vítima de insuficiência respiratória. O narrador descreve a sala e os que estão no velório como o Tércio da Gama e o Adolfo Boos e a parteira dona Vicentina e lembra que foi ali, há pouco mais de 11 anos, ali mesmo, num quartinho ao lado da sala, à luz de um lampião, fora a primeira pessoa a ver e a segurar aquele menininho branco branco branco, branco assim da cor da lua'.(p.57) O escritor, em cena de bastante intimismo poético, concentrada na morte do menino Orlandinho, filho da negra dona Zenilda, Branco assim da cor da lua, fazendo várias "personagens",além de Cascaes (de ares ponderados e humanitários), transitarem do real para a ficção: Tércio da Gama, Adolfo Boos, o próprio autor-narrador -todos "rapazes pequenos",moradores a Rua Bocaiúva, há décadas passadas. 4.7 O ABENÇOADO Júlio de Queiroz Tema central: Conjuração de bruxas que amaldiçoam a moderna medicina. Malina olhou ao longe. Há mil anos que venho recomendando a Pestina para aprender a chegar na hora combinada. Peste de bruxa que sempre se atrasa! comentou com o gato preto empoleirado no seu ombro esquerdo."(p.59) As bruxas começaram a se reunir, algumas contando as malvadezas que estavam aprontando. Ao total eram sete, como deveria de ser. Malina, convocando as bruxas, apresenta o motivo da convocação daquela reunião: com essa história de progresso, de médicos aos montes e uma farmácia em cada canto e em cada farmácia mil remédios para tudo, nós estamos ficando mais que desmoralizadas."(p.60) As bruxas concordam e apresentam exemplos de jovens que não acreditam mais em benzeduras e que preferem buscar a solução médica. Decidem então, que na próxima reunião, trarão soluções para o problema. Uma lua depois, caindo um Vento Sul fortíssimo, as bruxas começaram a chegar. Malina não foi a primeira, mas também não foi a última. Como só faltava a Pestina, Malina deu a sessão por aberta e quis saber o que é que suas irmãs haviam elaborado."(p.61) Pestina chega toda alvoroçada e diz que se atrasou porque viu em um lugarejo chamado São José um marido e uma mulher "querendo fazer aquelas coisas" (p.62) e que estavam lá três fadas disfarçadas de rolinhas e estavam abençoando o fruto daquele amor, afirmando que nasceria um menino no dia 16 de outubro de 1908, que chamar-se-ía Franklin e que ele preservaria a cultura daquele lugar, bem como as histórias de bruxas. Uma das bruxas apressou-se em dizer que era necessário matarem o menino, mas Malina, a bruxa chefe diz: Não seja burra!.A gente não queria ser lembrada? Pois aí está o menino que vai cuidar para que a gente não morra na memória das pessoas."(p.63) As outras bruxas concordaram e cada uma foi embora para seu destino. Então, este conto acaba colocando em foco um autêntico congresso bruxólico, com o objetivo de se tomarem resoluções eficazes para deter o crescente descrédito com que as bruxas vêm sendo tratadas, tudo "culpa do tal de progresso",bem como projetando, entrementes, as malignidades por elas forjadas, a bruxa Pestina relata cena ocorrida em São José, onde três fadas comentavam a concepção e o nascimento futuro de um menino que registrará todas as estórias, lendas, costumes, bruxas e bruxedos da região. 4.8 AO ENTRARDECER Maria de Lourdes Krieger Tema central: Pesca de arrastão como retrato antropológico "A chuva bate nas costas desnudas dos pescadores a puxarem os cabos da rede do arrastão."(p.65) Veranistas pedem por peixes, assim como Onofre, pescador já velho, mas que atua como olheiro em busca de cardumes. Ele não gostava muito das mudanças que trazia o verão: turistas, os corpos desnudos, o alarido e os costumes estranhos e seu amigo avisa que aquela destruição toda traria sérias conseqüências. Este amigo aparecia sempre com folhas de papel e lápis numa pasta de couro e com ele Onofre aprendeu a valorizar o chão em que vivia. O alvoroço da chegada das embarcações termina e Onofre agora volta a procurar cardumes e lembra de seu amigo Franklin:"vejam os manguezais."(p.67) e El sorri, pois sabe que este amigo deve estar contando histórias fantásticas para aquela a quem ele rendia homenagens: Nossa Senhora do Desterro. Este conto condensa uma cena ou instantâneo na vida praieira: a chegada dos pescadores com seu escasso produto, que é vendido para a divisão dos lucros, enquanto o "olheiro" Onofre lembra o amigo (não será preciso dar seu nome!) que tanto advertira sobre mudanças nefastas do progresso sobre essa ilha "embruxada pelo capitalismo e pelos gananciosos".4.9 O DIÁRIO DA VIRGEM DESAPARECIDA Olsen Jr. Tema central: A mulher é bruxa quando se emancipa "Tenho o hábito de recortar matérias de jornal que possuam qualquer coisa de singular, inusitado, insólito, original, curioso, enfim, algo capaz de compor a natureza humana além da mesmice cotidiana."(p.69) O narrador conta que leu uma manchete na véspera do Natal de 1978 Adolescente desaparece sem deixar vestígios ela era uma estudante na lagoa da Conceição e o pai, indignado, afirmava que a filha tinha sumido na mesma data que um estranho gringo fizera também o mesmo. A história não teria nada de especial, mas dez dias depois foi apresentado um diário, pela amiga da jovem que desaparecera. Este diário chamou a atenção do narrador que foi até a casa da moça e pediu uma entrevista com a mãe. Conseguiu ele ver a caderneta, mas não havia como emprestá-la e ele resolveu copiar as informações, cerca de dezessete anotações de página e meia cada, com apenas uma data: dia 4 de novembro. Quando já havia terminado, chega o pai da moça, aparentemente embriagado e joga a caderneta no fogo, afirmando tratar-se de um ritual para libertar a filha do embruxamento ou como dizia o professor Franklin Cascaes, do fado bruxólico. Descobre-se então que o nome do gringo era Raphael Constanzo Flores, alto, moreno, espadaúdo, gostava de fazer pães e era vizinho da moça. Ele havia decidido ser professora e com o tempo, aproximou-se naturalmente do jovem e a amizade transformou-se em paixão. Um dia acontece o inevitável e os dois fazem amor. No mês seguinte, a menstruação não veio e Raphael não se mostrou surpreso e acertou que os dois iriam para Curitiba. No dia 04 de novembro ela recebe uma folha de jornal com uma edição especial a respeito de Franklin Cascaes. Ela lê a notícia e vê o desenho de uma galinha choca. A reportagem apresentava informações sobre as bruxas da ilha: que elas tinham uma vida melhor se comparadas àquelas perseguidas pela Inquisição e que todas elas acreditavam que podiam voar, que possuíam poder sobrenaturais, poderes de curar, matar, de mudar as condições climáticas."também se ufanavam de ter relações sexuais com os demônios íncubos e súcubos. ncubo (por cima) e súcubo (por baixo). Os demônios se transformavam oram em homem (íncubo) oram em mulher (súcubo). Para a transformação o demônio deveria roubar o esperma humano, o que conseguia durante o sono, através da masturbação. As bruxas reclamavam que este esperma era muito frio, que eles tinham um membro muito ereto, mas sem sabor, porque frio."(p.75) A mesma reportagem ainda fala sobre uma galinha que perseguiu um pescador e ele bateu nela, quebrando-lhe o braço e no outro dia apareceu Merência, com uma tipóia no braço. Então deram um surra naquela mulher e lhe jogaram água e sal, para tirar o fado bruxólico. Depois disso, a moça tem alguns sonhos com bruxas e decide pela sua fuga na véspera do Natal. O diário terminava ali, Ah! Quase esqueço! O filho da Sibele (este é o nome da moça que fugiu) com Raphael, um rapaz moreno de olhos verdes chama-se Nathan, tem quase vinte e cinco anos, cursa engenharia e até acha graça quando associam o seu nascimento a um forte cheiro de enxofre no ar, é o sinal dos tempos, afirma, embora hoje ninguém acredite mais em bruxas; mas que elas existem, existem."(p.77) Assim, retomando em boa ótica a crendice bruxólica nesta Ilha da Magia, bem como um fato nada estranho às tradições açorianas (a fuga -rapto de adolescente), um caso de "fado bruxólico" se corporifica no sintético diário, astuciosamente reconstituído por ardis do narrador, que vai desfiando os fios dessa meada de aparência policialesca. 4.10 TALVEZ A PRIMEIRA E ÚLTIMA CARTA Péricles Prade Tema Central: Uma oitava filha' interpela Franklin e advoga sua condição de não-bruxa. O conto, em modelo de carta começa assim: Desterro, 14 de março de 1983. Seu Franklin."(p.79) A moça chamada Benta diz-se indignada, pois após uma afirmação em "Bruxas Gêmeas",conto do livro "O Fantástico na Ilha de Santa Catarina" datado de 1950 ela tem passado por bruxa, apesar de nunca ter feito nenhum mal a ninguém e que seu único gostinho é ficar nua, assim como gostam as bruxas quando é sábado. Benta relata que é gêmea de Santa e que seus pais já tinham seis filhos e que todos sabem que quando nasce o sétimo, se for menina, será bruxa. Seu pai, quando soube que a parteira, Custódia do Chico Pelego, esqueçera de marcar quem era a sétima, para chamar de Benta e livrá-la do mal, decidiu recorrer a Candinha Miringa, benzedeira e curandeira, mas de nada adiantou, pois seu Manoel Braseiro, não sabia responder quem era a filha bruxa. A benzedeira, então, pediu ajuda de Lúcifer, seu chefe. O problema é que Belzebu apontou Benta como bruxa e como ele sabia que ninguém acreditava nele, acabaram por desfazer o mal em Santa, o que de nada adiantou. Ao final, Benta acha graça da armadilha do demo e pede que o Sr. Cascaes mude o seu texto, caso contrário "Se até amanhã, dia 15, eu não for atendida, mudando o que deve ser mudado, morrerá para jamais voltar a cometer equívocos dessa natureza. E para aprender que não só as bruxas fazem mal."(p.81) O criador (ou compilador) não fugia do poder das criaturas! 4.11 NOITES DE ENCANTAMENTO Raul Caldas Filho Tema central: Relacionamento animoso e amoroso entre a antropóloga incrédula e o defensor do que é nativo. Um menino ouve, na noite que avança, histórias fantásticas de monstros, bruxas lobisomens até que sua mãe ordena que ele vá dormir. O menino brinca de modelas na areia aquelas noites de encantamento, ele é Franklin, 10 anos. Após um mês da morte de Franklin Cascaes em maio de 1983, Ricardo recebeu um telefonema de uma jornalista carioca querendo uma entrevista sobre nosso professor Seu nome era Natasha, uma bela mulher, de seios pontudos e corpo esguio. Ricardo levou-a até o Museu para apresentar as pinturas, desenhos, livros, pequenas esculturas de cerâmica e falou sobre as velhas crenças açorianas e principalmente sobre bruxas e como elas nascem. Natasha parecia desdenhar das histórias e Ricardo acha que ela é uma "racionalista-cartesiana, chata e presunçosa."(p.85) e quanto mais conhecia do trabalho de Cascaes mais ela achava tudo aquilo crendice de baixo extrato, sem o menor valor para antropologia. Ricardo lembrou-se de Sinhá Vitelina, uma velha curandeira e levou Natasha para conhecê-la. A velha afirmou: bruxaria é a maldade que ainda domina o mundo e se aloja na cabeça das pessoas. É o ódio, a inveja, o despeito, a luxúria, a violência, a maledicência."(p.86) Natasha e Ricardo voltaram para o carro e ficaram um bom tempo sem falar. Ela pediu que ele parasse em uma enseada, às margens da baía Sul. Começaram a trocar carícias mais que picantes e foram caminhar por um descampado. Natascha interrompeu Ricardo e disse: Meus pais vieram da Ucrânia para o Brasil, fugindo dos horrores da Segunda guerra Mundial. Estabeleceram-se no Rio de Janeiro e tiveram sete filhas. Eu fui a sétima. Interrompeu-se mais uma vez e acrescentou, enigmática: sou então uma bruxa."(p.87) Noites de encantamento, de Raul Caldas Filho, confirma que bruxas não povoam apenas a Ilha de Santa Catarina, pois, cerca de um mês após a morte de Cascaes, veio à Ilha Natasha, sétima filha de um casal que viera ao Rio de Janeiro, fugindo dos horrores da Segunda Guerra Mundial na Ucrânia. E veio com todos os direitos. 4.12 MISTÉRIO NO MIRAMAR Salim Miguel Tema central: A imaginação tem memórias "Atravessou correndo a Praça, ofegante e trêmulo entrou na cozinha adentro, onde a mãe preparava o café, e mal conseguiu murmurar: Ma-mãeo-cor-po-o-som."(p.89) O menino contou que estava no Miramar e viu um corpo e uma voz insistindo para ele falar com o Franklin. O corpo foi levado ao necrotério e o Dr. Luís Delfino vai fazer a autópsia e já no outro dia os jornais noticiavam "MISTÉRIO NO MIRAMAR. Ninguém sabia quem era o homem que estava sem dinheiro, documentos, apenas um lenço no bolso e uma pasta de couro, com as letras JCS, amarrada ao pulso. O pai e o menino foram até a delegacia, pois o pai conhecia o comissário Várzea. O garoto recontou o que ouviu sobre falar com o Franklin e Virgílio, o escrivão, disse que havia o professor da Escola Industrial. O professor não sabia de nada, apesar do menino Ernani ouvir seu nome e o cadáver possuir um desenho que poderia ser seu. Subitamente Cascaes revela que alguns dias atrás um homem lhe fizera um pedido estranho de um desenho: suas bruxas, com inteira liberdade, a única exigência é nas caras, uma deve lembrar Cruz e Sousa, outra a noiva Pedra, a terceira a esposa Gavita, a quarta, com cinco cabeças: Julieta, Carolina, Cruz, Gavita, Pedra."(p.93) Franklin explicou que o rapaz só buscou o primeiro desenho e quando Ernani viu o segundo desenho tomou um susto, dizendo que era aquele ser que o perseguiu no Miramar. Também lembrou-se nosso professor que o nome do indivíduo era João, que tinha estado em um hotel, mas que ninguém sabia de seu paradeiro e que quando foi ao Hotel La Porta só encontrou nomes como (repare que são de poetas):Andrade Muricy, Tasso, Alceu, Alphonsus, Abelardo, Raymundo, Roger. Cascaes afirma ao delegado que estas coisas misteriosas são típicas, são tudo coisas desta Ilha misteriosa e embruxada."(p.94) O comissário Várzea e o escrivão Virgílio continuaram suas buscas, falam com o motorista do caminhão-do-lixo Santos Lostada, mas nada encontraram. O menino Ernani, certo dia, quando lia Broquéis, de Cruz e Sousa, viu passar uma bruxa enorme de cinco cabeças, ela deu um vôo rasante pela Praça XV e se perdeu pelos lados da Ponte Ercílio Luz. Lembrou-se do professor Franklin: Neste mundo absconso, como disse o Poeta, há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia."(p.95) Neste conto, Franklin Cascaes participa, como personagem, de vários relatos. Mistério no Miramar, de Salim Miguel, aparenta ingredientes policiais, concentrado num corpo misterioso recolhido nas águas junto ao Miramar. Há um sutil refinamento que aponta para prodigiosa riqueza intertextual dos nomes das personagens, a partir dos traços essenciais de Franklin Cascaes, da figura de JCS (João da Cruz e Sousa) e do seu círculo de amigos: Virgílio Várzea, Araújo Figueredo, Santos Lostada, Oscar Rosa, Luís Delfino (alguns desdobrados), seus pais Carolina e Guilherme e suas amadas Pedra e Gavita, além da angelical Julieta (dos Santos), aos quais se somam os admiradores e estudiosos do Cisne Negro: Nestor (Vítor), Andrade Muricy, Tasso (da Silveira), Alphonsus (de Guimaraens), Abelardo (Montenegro), Raymundo (Magalhães), Roger (Bastide). 4.13 -O FOLHETO Silveira de Souza Tema central: Bruxas desenham, em uma aparição feérica, o apavorado perguntador' da cidade. Tudo aconteceu no final dos ano 50 ou início dos anos 60, não lembro muito bem."(p.97) O narrador possui uma pequena gráfica e leciona matemática para sobreviver. O amigo Maurício apareceu com a idéia de fazer um folheto de 16 páginas sobre as bruxas de Franklin, imprimiriam 200 exemplares e rachariam a venda. O narrador lecionava no mesmo colégio do professor Franklin e em um intervalo de aula apresentou seu projeto e emprestou algumas de suas anotações e passou o endereço de um amigo, o Zeferino, de Pontas das Canas. Mas o senhor, professor Franklin, acredita em bruxas? Eu acredito na mente das pessoas, que cria tudo o que elas acreditam. (.) meu trabalho é o de apenas anotar as histórias que esse povo conta."(p.99) Maurício achou ótimas as histórias e a idéia de visitar no sábado à tarde o Zeferino, mas o narrador foi sozinho, pois seu amigo foi para Curitiba. Zeferino era um homem simples que recebeu muito bem o entrevistador, o problema foi que começou a cair uma chuva forte. O senhô vai ficá nesta casa até a chuva passá, mesmo que dure três dia falou Zeferino."(p.101) A conversa dentro da casa foi trivial até que Zeferino foi perguntado sobre duas réstias de alho penduradas na parede da sala e sua esposa informou que eram proteção contra as bruxas e que ele deveria ficar também com um dente de alho. Relataram ao narrador que o filho deles, o menino Pedro, já estivera embruxado e que dona Luiz Benzedera conseguira salvá-lo com uma reza assim: Treze raio tem o sóli/treze raio tem a lua./Sarta diabo pro inferno/ qu'esta alma não é tua./tosca marosca, rabo de rosca/ (.) (p.103 A conversa seguiu até a hora de dormirem e a noite foi de pernilongos e já pelas cinco e meia da manhã o narrador estava de pé. Ele se despediu e foi pelo lado da praia e pelo caminho encontrou uma baleeira com um abrigo e ficou aterrorizado ao ver "três velhotas dentro da baleeira, muito altas, magras e feias, que fingiam remar remos invisíveis e faziam uma tremenda algazarra. Um pouco adiante, a dois passos da baleeira, numa árvore enorme e de tronco grosso, outra velhota do mesmo tipo ia e vinha, sentada num balanço preso por cordas trançadas e amarradas a um dos galhos."(p.105) As bruxas ameaçaram: Lá vai o istepô de bundinha branca! Tá dizendo por aí que vai falá da gente! (.) Vamo enfiá um remo no rabo desse maroto!"(p.105) O folheto nunca foi publicado, Maurício não voltou de Curitiba e só agora, anos mais tarde, Silveira de Souza confessa ter coragem de contar o ocorrido e reza para que ninguém acredite. • (Ver Menos)

  10. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • UMA NOITE DE PROFUNDA INSÔNIA, • de Amilcar Neves • Tema central: • Bruxas são erotizadas na maternidade de seres • imaginários. • Narrativa: • Foi numa sexta-feira, numa noite de profunda insônia solitária. • O narrador, solteiro, diz que mora ocasionalmente na Ilha e que encontrou seu vizinho casado, que é Franklin Cascaes. • Ambos estão nos distantes anos 60 ou setenta. • A rua está deserta, um ou outro cachorro perdido e os dois se encontram e caminham despreocupados até a Lagoinha do Jacaré do Rio Tavares, onde se acredita ser uma "maternidade tatarina",um "ninho de boitatás". • A noite é perfeita e o Franque declama uma quadrinha: Ilha das velhas faceiras E, também, das moças prosas As bruxas dos teus encantos São lindas que nem as rosas Confessa o narrador acreditar que as bruxas da Ilha são absolutamente horríveis e Mestre Francolino afirma: Quase isso. Na verdade, apenas metade desse pessoal todo é que insiste em atestar que as bruxas são do jeito que descreveres. Apenas aquela metade diretamente interessada no assunto: as mulheres, as nossas mulheres, que temem a concorrência imbatível."(p.32) Logo avistam um grupo de mulheres, que abanam o rabo para o vizinho do narrador: Franculino, meu lobisomenzinho de estimação!"(p.32) Uma linda bruxa negra aproxima-se, dá um beijo em Cascaes, nota o narrador que todos estão nus. Ao retornarem para casa, pela Mauro Ramos, fala Franklin: A vida é assim mesmo, meu jovem amigo. Por diversos motivos não temos como compartilhar com os outros os nossos melhores momentos. Nem mesmo sendo um escritor de ficção: primeiro porque ninguém vai acreditar em ti e, se tiveres a intenção de falar a sério ,corres um riso considerável de ver a tua reputação arruinada sem remédio."(p.33) Neste conto, o autor reconstrói um encontro com o próprio Franque, colocando em xeque variadas questões: Bruxa existe ou não? Escritor terá "a intenção de falar sério"?O que é a verdade? A ficção engloba personagens reais, ou a realidade se compõe de personagens ficcionais? Criador e criatura podem conviver? 4.3 HISTÓRIA PRAIANA EGLÊ MALHEIROS Tema central: Bruxas assumem a condição de mulher autônoma no patriarcado das famílias, então, quem se rebela é bruxa? Partos a termo tinham sido doze, criou cinco."Docelina é mulher de pescador, está casada há 20 anos, já passou muita fome, está feia, pelancuda e seu marido é absolutamente controlador: não permite modernices',como ir ao Posto de Saúde e ele é o guardião do título de eleitor desta mulher sofredora. Ele, o marido, chamado Armando, é dado à bebedeiras, bailões e bate na esposa. Entretanto, nos últimos tempos, aos sábados, Docelina tem comparecido ao posto de saúde para umas palestras sobre a valorização da mulher e seu trabalho. À noite, os homens comentam no bar que as bruxas estavam virando a cabeça das mulheres; diz um dos homens: Bruxas é que elas são. Aquele professor da Escola de Artífices, que vivia escutando essas histórias, devia sair do túmulo para conhecer as verdadeiras, as dele não assustam mais ninguém."(p.38) "Tudo culpa das bruxas que vieram da cidade bagunçar as idéias de nossas mulheres. A Docelina ontem me enfrentou, se eu for para o bailão e encher a cara ela vai embora; pior, vai querer abrir inventário da herança do pai e pedir sua parte no terreno."(p.38) Armando afirma gritando "Os da antiga tinham razão, bruxas, bruxas, existem e são de assustar."(p.39) Enfim, Eglê Malheiros, retrata neste conto Docelina e seus 12 filhos, reduzidos a cinco, ou a quatro e meio, consolando-se com seus "anjinhos, almas puras",sem deixar, porém, de refletir "por que só filho de pobre vira anjinho?"Enquanto as "modernices" a aliciam, seu marido Armando lança a contrapartida: nessas "modernices" estão as "bruxas",da pior espécie",como diria, se presente estivesse, Aquele professor da Escola de Artífices! Certamente ficaria estarrecido. 4.4 O "MINHA QUERIDA" Fábio Brüggemann Tema central: Antiga embarcação como pretexto para a realidade paralela. O rapaz estava começando a se despedir de uma vida muito dura de garçom .Agora, além de dar adeus ao "Minha Querida",não tem que adivinhar mais, pela cara, roupa e conversa do freguês, o quanto será a féria, extraída dos mal contados dez por cento, no fim da noite, às vezes começo da manhã".(p.41)".Não precisaria mais comprar terno de brechó, podia dar adeus às lojas de um e noventa e nove onde comprava a decoração de sua casa depois que os pais morreram no naufrágio do "Amália";aliás, após a morte da esposa do armador, ele comprara um novo barco com o nome "Minha querida Amália",mas pouco depois, casou-se novamente e mudou o nome para "Minha Querida".Mas o que deixava nosso jovem mais feliz com sua nova vida era não passar mais em frente ao cemitério que ele jurava ter visto assombrações. Um dia, quando ainda trabalhava no restaurante, chegou para jantar o seu Francolino."(p.43) O garçom pediu para o patrão apresentá-lo ao professor que ouviu a história do rapaz e achou graça, mas afirmou que iria até o cemitério para mostrar a farsa das almas penadas. Seu Francolino mostrou que "o barulho era de uma árvore que balançava quando havia vento e raspava os galhos no muro. E a imagem era a sombra da mesma árvore no mesmo muro branco, iluminada pela mesma luz de um poste."(p.44) Depois da explicação, o professor foi embora e o rapaz foi com uma moça ao cemitério e visitaram uma lápide bem iluminada pela mesma luz que assombrava o muro e acharam a inscrição: aqui jaz Amália Rodrigues da Silva (1921-1974)" (p.44) O rapaz concluiu que era a dona Amália do Minha Querida, e no sábado seguinte comprou o bilhete 1921 e ficou rico. Mudou de vida, casou-se com a moça, e agora vai todos os sábados ao túmulo de dona Amália, que nasceu, para a sorte do rapaz, em 1921. Examinada criticamente a história do marido de Amália (no naufrágio do "Amália"), insinua-se a história do cemitério assombrado, quando o seu Francolino mais desfaz crendices do que recolhe causos. 4.5 DOIS BANDOLINS Flávio José Cardozo Tema central: A memória da coisa vivida (a ausência crônica da mulher, Elisabeth). Amanhã não venho trabalhar",o professor disse ao auxiliar Peninha no final do expediente, amanhã. tu bem sabes."e as palavras pararam, mas nem foi preciso dizê-las: Peninha botou a mão no ombro dele e bastou isso para mostrar que se lembrava muito bem de que amanhã, 30 de abril, eram mai um aniversário da morte de Dona Beth".(p.47) O professor dormiu pensando em passar aquele dia especial entre seus desenhos, escritos, esculturas e os crochês, músicas e flores de sua amada falecida mulher que adorava tocar uma modinha de bandolim quando viva e moradores daquela mesma casa da Júlio Moura. Nas o professor decidiu que seria melhor trabalhar no Museu, lá Beth seria mais viva. O dia foi normal e após o expediente, o professor saiu sem pressa com seu TL verde. À noite, sua fiel empregada Ana pôs a mesa, ele sentou no sofá e começou a pensar em bruxas: a Irinéia das Dores, a Virgilina e as três filhas, Demetra, Canda Mandioca, Nica Besuga, Sinhá Bidica e outras. Pelas onze e meia ouviu sons, sim era música. e de bandolim! Foi para fora de casa ver o que era. Quem tocava o instrumento não era Beth. Seca como um longo graveto, murcha e feia que nem os sete pecados capitais, quem tocava o bandolim não era Beth, não, diabolicamente não, quem tocava não era outra senão a bruxa bandolinista da Orquestra Selenita Bruxólica que certa noite, conforme o professor numa andança pela Ilha e depois fixou numa de suas histórias assombrosas, apareceu ao pescador Geraldo Sem Medo no Retiro da Lagoa."(p.50) A bruxa horrorosa gritava para que Franklin esquecesse sua Beth, que ela estava morta. O professor não sabia se invoca contra a megera segredos exorcísticos ou deixava a bruxa ali mesmo. Optou pela segunda. Quando entrou em casa apareceu-lhe sua amada esposa, tocando a Ave-Maria de Schubert em seu bandolim. Um vento, um bafo, pela Júlio Moura afora foi aquele desarvorado vôo de bruxa, sobre o qual o professor, discreto, nunca escreveu que um outro curioso por casos raros o fizesse."(p.51) Enfim, em tom poético, sensual e transfigurador, o conto restitui-nos um dia de ausências, saudades, revivências de um Cascaes de certa forma já desprendido do solo rude e entremostrando dimensões sublimadas, nos seus amores com Beth, amores que, se foram estéreis em relação a filhos, multiplicaram-se na afeição mútua, a ponto de, falecida ela, somente salvá-lo da solidão o "bendito Museu da Universidade",nesses "quatro anos sem Beth e sempre com ela",cena plenificada com a bruxa bandolinista sublimada e fundida na "soberana" Beth, bandolim silencioso na mão direita".4.6 BRANCO ASSIM DA COR DA LUA Jair Francisco Hamms Tema central: A memória de uma infância, na Ilha antiga, encontra áreas de profundidade humana. Sabe quem morreu? O Orlandinho, filho da dona Zenilda. (.) O seu Orlando saiu agorinha para comprar um caixãozinho. Ele e o professor Franklin Cascaes, que assim que soube, correu para lá. (.) O Orlandinho por quem a mamãe lamentava era albino."(p.54) Este menino viveu seus poucos 11 anos sofrendo, ora contra a bronquite, ora com asma. Era filho do negro Orlando da Purificação e da dona Zenilda, linda negra. O narrador que confessa ter sido seu vizinho, conta das perseguições ao menino, inclusive quando o chamavam de "barata descascada" e na escola Orlandinho não saía para o recreio para não ser mais humilhado ainda e ficava desenhando. Certo dia apareceu a professora dona Florentina com um homem até então desconhecido, era o professor Franklin Cascaes, que viera conhecer o Orlandinho e seus desenhos. O professor ficou muito impressionado com a qualidade dos desenhos e prometeu matricular o menino na escola particular da professora Jurema Cavallazzi e no ano seguinte na Escola Industrial onde ele lecionava. Pela primeira vez o menino sorria e parecia feliz. A escola era longe e quando o menino se cansava seu pai o levava no cangote. Na hora do recreio, Orlandinho desenhava os colegas ou heróis dos quadrinhos e era um sucesso. Mas esta felicidade só durou três meses, pois no dia 10 de julho, Orlandinho morria, vítima de insuficiência respiratória. O narrador descreve a sala e os que estão no velório como o Tércio da Gama e o Adolfo Boos e a parteira dona Vicentina e lembra que foi ali, há pouco mais de 11 anos, ali mesmo, num quartinho ao lado da sala, à luz de um lampião, fora a primeira pessoa a ver e a segurar aquele menininho branco branco branco, branco assim da cor da lua'.(p.57) O escritor, em cena de bastante intimismo poético, concentrada na morte do menino Orlandinho, filho da negra dona Zenilda, Branco assim da cor da lua, fazendo várias "personagens",além de Cascaes (de ares ponderados e humanitários), transitarem do real para a ficção: Tércio da Gama, Adolfo Boos, o próprio autor-narrador -todos "rapazes pequenos",moradores a Rua Bocaiúva, há décadas passadas. 4.7 O ABENÇOADO Júlio de Queiroz Tema central: Conjuração de bruxas que amaldiçoam a moderna medicina. Malina olhou ao longe. Há mil anos que venho recomendando a Pestina para aprender a chegar na hora combinada. Peste de bruxa que sempre se atrasa! comentou com o gato preto empoleirado no seu ombro esquerdo."(p.59) As bruxas começaram a se reunir, algumas contando as malvadezas que estavam aprontando. Ao total eram sete, como deveria de ser. Malina, convocando as bruxas, apresenta o motivo da convocação daquela reunião: com essa história de progresso, de médicos aos montes e uma farmácia em cada canto e em cada farmácia mil remédios para tudo, nós estamos ficando mais que desmoralizadas."(p.60) As bruxas concordam e apresentam exemplos de jovens que não acreditam mais em benzeduras e que preferem buscar a solução médica. Decidem então, que na próxima reunião, trarão soluções para o problema. Uma lua depois, caindo um Vento Sul fortíssimo, as bruxas começaram a chegar. Malina não foi a primeira, mas também não foi a última. Como só faltava a Pestina, Malina deu a sessão por aberta e quis saber o que é que suas irmãs haviam elaborado."(p.61) Pestina chega toda alvoroçada e diz que se atrasou porque viu em um lugarejo chamado São José um marido e uma mulher "querendo fazer aquelas coisas" (p.62) e que estavam lá três fadas disfarçadas de rolinhas e estavam abençoando o fruto daquele amor, afirmando que nasceria um menino no dia 16 de outubro de 1908, que chamar-se-ía Franklin e que ele preservaria a cultura daquele lugar, bem como as histórias de bruxas. Uma das bruxas apressou-se em dizer que era necessário matarem o menino, mas Malina, a bruxa chefe diz: Não seja burra!.A gente não queria ser lembrada? Pois aí está o menino que vai cuidar para que a gente não morra na memória das pessoas."(p.63) As outras bruxas concordaram e cada uma foi embora para seu destino. Então, este conto acaba colocando em foco um autêntico congresso bruxólico, com o objetivo de se tomarem resoluções eficazes para deter o crescente descrédito com que as bruxas vêm sendo tratadas, tudo "culpa do tal de progresso",bem como projetando, entrementes, as malignidades por elas forjadas, a bruxa Pestina relata cena ocorrida em São José, onde três fadas comentavam a concepção e o nascimento futuro de um menino que registrará todas as estórias, lendas, costumes, bruxas e bruxedos da região. 4.8 AO ENTRARDECER Maria de Lourdes Krieger Tema central: Pesca de arrastão como retrato antropológico "A chuva bate nas costas desnudas dos pescadores a puxarem os cabos da rede do arrastão."(p.65) Veranistas pedem por peixes, assim como Onofre, pescador já velho, mas que atua como olheiro em busca de cardumes. Ele não gostava muito das mudanças que trazia o verão: turistas, os corpos desnudos, o alarido e os costumes estranhos e seu amigo avisa que aquela destruição toda traria sérias conseqüências. Este amigo aparecia sempre com folhas de papel e lápis numa pasta de couro e com ele Onofre aprendeu a valorizar o chão em que vivia. O alvoroço da chegada das embarcações termina e Onofre agora volta a procurar cardumes e lembra de seu amigo Franklin:"vejam os manguezais."(p.67) e El sorri, pois sabe que este amigo deve estar contando histórias fantásticas para aquela a quem ele rendia homenagens: Nossa Senhora do Desterro. Este conto condensa uma cena ou instantâneo na vida praieira: a chegada dos pescadores com seu escasso produto, que é vendido para a divisão dos lucros, enquanto o "olheiro" Onofre lembra o amigo (não será preciso dar seu nome!) que tanto advertira sobre mudanças nefastas do progresso sobre essa ilha "embruxada pelo capitalismo e pelos gananciosos".4.9 O DIÁRIO DA VIRGEM DESAPARECIDA Olsen Jr. Tema central: A mulher é bruxa quando se emancipa "Tenho o hábito de recortar matérias de jornal que possuam qualquer coisa de singular, inusitado, insólito, original, curioso, enfim, algo capaz de compor a natureza humana além da mesmice cotidiana."(p.69) O narrador conta que leu uma manchete na véspera do Natal de 1978 Adolescente desaparece sem deixar vestígios ela era uma estudante na lagoa da Conceição e o pai, indignado, afirmava que a filha tinha sumido na mesma data que um estranho gringo fizera também o mesmo. A história não teria nada de especial, mas dez dias depois foi apresentado um diário, pela amiga da jovem que desaparecera. Este diário chamou a atenção do narrador que foi até a casa da moça e pediu uma entrevista com a mãe. Conseguiu ele ver a caderneta, mas não havia como emprestá-la e ele resolveu copiar as informações, cerca de dezessete anotações de página e meia cada, com apenas uma data: dia 4 de novembro. Quando já havia terminado, chega o pai da moça, aparentemente embriagado e joga a caderneta no fogo, afirmando tratar-se de um ritual para libertar a filha do embruxamento ou como dizia o professor Franklin Cascaes, do fado bruxólico. Descobre-se então que o nome do gringo era Raphael Constanzo Flores, alto, moreno, espadaúdo, gostava de fazer pães e era vizinho da moça. Ele havia decidido ser professora e com o tempo, aproximou-se naturalmente do jovem e a amizade transformou-se em paixão. Um dia acontece o inevitável e os dois fazem amor. No mês seguinte, a menstruação não veio e Raphael não se mostrou surpreso e acertou que os dois iriam para Curitiba. No dia 04 de novembro ela recebe uma folha de jornal com uma edição especial a respeito de Franklin Cascaes. Ela lê a notícia e vê o desenho de uma galinha choca. A reportagem apresentava informações sobre as bruxas da ilha: que elas tinham uma vida melhor se comparadas àquelas perseguidas pela Inquisição e que todas elas acreditavam que podiam voar, que possuíam poder sobrenaturais, poderes de curar, matar, de mudar as condições climáticas."também se ufanavam de ter relações sexuais com os demônios íncubos e súcubos. ncubo (por cima) e súcubo (por baixo). Os demônios se transformavam oram em homem (íncubo) oram em mulher (súcubo). Para a transformação o demônio deveria roubar o esperma humano, o que conseguia durante o sono, através da masturbação. As bruxas reclamavam que este esperma era muito frio, que eles tinham um membro muito ereto, mas sem sabor, porque frio."(p.75) A mesma reportagem ainda fala sobre uma galinha que perseguiu um pescador e ele bateu nela, quebrando-lhe o braço e no outro dia apareceu Merência, com uma tipóia no braço. Então deram um surra naquela mulher e lhe jogaram água e sal, para tirar o fado bruxólico. Depois disso, a moça tem alguns sonhos com bruxas e decide pela sua fuga na véspera do Natal. O diário terminava ali, Ah! Quase esqueço! O filho da Sibele (este é o nome da moça que fugiu) com Raphael, um rapaz moreno de olhos verdes chama-se Nathan, tem quase vinte e cinco anos, cursa engenharia e até acha graça quando associam o seu nascimento a um forte cheiro de enxofre no ar, é o sinal dos tempos, afirma, embora hoje ninguém acredite mais em bruxas; mas que elas existem, existem."(p.77) Assim, retomando em boa ótica a crendice bruxólica nesta Ilha da Magia, bem como um fato nada estranho às tradições açorianas (a fuga -rapto de adolescente), um caso de "fado bruxólico" se corporifica no sintético diário, astuciosamente reconstituído por ardis do narrador, que vai desfiando os fios dessa meada de aparência policialesca. 4.10 TALVEZ A PRIMEIRA E ÚLTIMA CARTA Péricles Prade Tema Central: Uma oitava filha' interpela Franklin e advoga sua condição de não-bruxa. O conto, em modelo de carta começa assim: Desterro, 14 de março de 1983. Seu Franklin."(p.79) A moça chamada Benta diz-se indignada, pois após uma afirmação em "Bruxas Gêmeas",conto do livro "O Fantástico na Ilha de Santa Catarina" datado de 1950 ela tem passado por bruxa, apesar de nunca ter feito nenhum mal a ninguém e que seu único gostinho é ficar nua, assim como gostam as bruxas quando é sábado. Benta relata que é gêmea de Santa e que seus pais já tinham seis filhos e que todos sabem que quando nasce o sétimo, se for menina, será bruxa. Seu pai, quando soube que a parteira, Custódia do Chico Pelego, esqueçera de marcar quem era a sétima, para chamar de Benta e livrá-la do mal, decidiu recorrer a Candinha Miringa, benzedeira e curandeira, mas de nada adiantou, pois seu Manoel Braseiro, não sabia responder quem era a filha bruxa. A benzedeira, então, pediu ajuda de Lúcifer, seu chefe. O problema é que Belzebu apontou Benta como bruxa e como ele sabia que ninguém acreditava nele, acabaram por desfazer o mal em Santa, o que de nada adiantou. Ao final, Benta acha graça da armadilha do demo e pede que o Sr. Cascaes mude o seu texto, caso contrário "Se até amanhã, dia 15, eu não for atendida, mudando o que deve ser mudado, morrerá para jamais voltar a cometer equívocos dessa natureza. E para aprender que não só as bruxas fazem mal."(p.81) O criador (ou compilador) não fugia do poder das criaturas! 4.11 NOITES DE ENCANTAMENTO Raul Caldas Filho Tema central: Relacionamento animoso e amoroso entre a antropóloga incrédula e o defensor do que é nativo. Um menino ouve, na noite que avança, histórias fantásticas de monstros, bruxas lobisomens até que sua mãe ordena que ele vá dormir. O menino brinca de modelas na areia aquelas noites de encantamento, ele é Franklin, 10 anos. Após um mês da morte de Franklin Cascaes em maio de 1983, Ricardo recebeu um telefonema de uma jornalista carioca querendo uma entrevista sobre nosso professor Seu nome era Natasha, uma bela mulher, de seios pontudos e corpo esguio. Ricardo levou-a até o Museu para apresentar as pinturas, desenhos, livros, pequenas esculturas de cerâmica e falou sobre as velhas crenças açorianas e principalmente sobre bruxas e como elas nascem. Natasha parecia desdenhar das histórias e Ricardo acha que ela é uma "racionalista-cartesiana, chata e presunçosa."(p.85) e quanto mais conhecia do trabalho de Cascaes mais ela achava tudo aquilo crendice de baixo extrato, sem o menor valor para antropologia. Ricardo lembrou-se de Sinhá Vitelina, uma velha curandeira e levou Natasha para conhecê-la. A velha afirmou: bruxaria é a maldade que ainda domina o mundo e se aloja na cabeça das pessoas. É o ódio, a inveja, o despeito, a luxúria, a violência, a maledicência."(p.86) Natasha e Ricardo voltaram para o carro e ficaram um bom tempo sem falar. Ela pediu que ele parasse em uma enseada, às margens da baía Sul. Começaram a trocar carícias mais que picantes e foram caminhar por um descampado. Natascha interrompeu Ricardo e disse: Meus pais vieram da Ucrânia para o Brasil, fugindo dos horrores da Segunda guerra Mundial. Estabeleceram-se no Rio de Janeiro e tiveram sete filhas. Eu fui a sétima. Interrompeu-se mais uma vez e acrescentou, enigmática: sou então uma bruxa."(p.87) Noites de encantamento, de Raul Caldas Filho, confirma que bruxas não povoam apenas a Ilha de Santa Catarina, pois, cerca de um mês após a morte de Cascaes, veio à Ilha Natasha, sétima filha de um casal que viera ao Rio de Janeiro, fugindo dos horrores da Segunda Guerra Mundial na Ucrânia. E veio com todos os direitos. 4.12 MISTÉRIO NO MIRAMAR Salim Miguel Tema central: A imaginação tem memórias "Atravessou correndo a Praça, ofegante e trêmulo entrou na cozinha adentro, onde a mãe preparava o café, e mal conseguiu murmurar: Ma-mãeo-cor-po-o-som."(p.89) O menino contou que estava no Miramar e viu um corpo e uma voz insistindo para ele falar com o Franklin. O corpo foi levado ao necrotério e o Dr. Luís Delfino vai fazer a autópsia e já no outro dia os jornais noticiavam "MISTÉRIO NO MIRAMAR. Ninguém sabia quem era o homem que estava sem dinheiro, documentos, apenas um lenço no bolso e uma pasta de couro, com as letras JCS, amarrada ao pulso. O pai e o menino foram até a delegacia, pois o pai conhecia o comissário Várzea. O garoto recontou o que ouviu sobre falar com o Franklin e Virgílio, o escrivão, disse que havia o professor da Escola Industrial. O professor não sabia de nada, apesar do menino Ernani ouvir seu nome e o cadáver possuir um desenho que poderia ser seu. Subitamente Cascaes revela que alguns dias atrás um homem lhe fizera um pedido estranho de um desenho: suas bruxas, com inteira liberdade, a única exigência é nas caras, uma deve lembrar Cruz e Sousa, outra a noiva Pedra, a terceira a esposa Gavita, a quarta, com cinco cabeças: Julieta, Carolina, Cruz, Gavita, Pedra."(p.93) Franklin explicou que o rapaz só buscou o primeiro desenho e quando Ernani viu o segundo desenho tomou um susto, dizendo que era aquele ser que o perseguiu no Miramar. Também lembrou-se nosso professor que o nome do indivíduo era João, que tinha estado em um hotel, mas que ninguém sabia de seu paradeiro e que quando foi ao Hotel La Porta só encontrou nomes como (repare que são de poetas):Andrade Muricy, Tasso, Alceu, Alphonsus, Abelardo, Raymundo, Roger. Cascaes afirma ao delegado que estas coisas misteriosas são típicas, são tudo coisas desta Ilha misteriosa e embruxada."(p.94) O comissário Várzea e o escrivão Virgílio continuaram suas buscas, falam com o motorista do caminhão-do-lixo Santos Lostada, mas nada encontraram. O menino Ernani, certo dia, quando lia Broquéis, de Cruz e Sousa, viu passar uma bruxa enorme de cinco cabeças, ela deu um vôo rasante pela Praça XV e se perdeu pelos lados da Ponte Ercílio Luz. Lembrou-se do professor Franklin: Neste mundo absconso, como disse o Poeta, há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia."(p.95) Neste conto, Franklin Cascaes participa, como personagem, de vários relatos. Mistério no Miramar, de Salim Miguel, aparenta ingredientes policiais, concentrado num corpo misterioso recolhido nas águas junto ao Miramar. Há um sutil refinamento que aponta para prodigiosa riqueza intertextual dos nomes das personagens, a partir dos traços essenciais de Franklin Cascaes, da figura de JCS (João da Cruz e Sousa) e do seu círculo de amigos: Virgílio Várzea, Araújo Figueredo, Santos Lostada, Oscar Rosa, Luís Delfino (alguns desdobrados), seus pais Carolina e Guilherme e suas amadas Pedra e Gavita, além da angelical Julieta (dos Santos), aos quais se somam os admiradores e estudiosos do Cisne Negro: Nestor (Vítor), Andrade Muricy, Tasso (da Silveira), Alphonsus (de Guimaraens), Abelardo (Montenegro), Raymundo (Magalhães), Roger (Bastide). 4.13 -O FOLHETO Silveira de Souza Tema central: Bruxas desenham, em uma aparição feérica, o apavorado perguntador' da cidade. Tudo aconteceu no final dos ano 50 ou início dos anos 60, não lembro muito bem."(p.97) O narrador possui uma pequena gráfica e leciona matemática para sobreviver. O amigo Maurício apareceu com a idéia de fazer um folheto de 16 páginas sobre as bruxas de Franklin, imprimiriam 200 exemplares e rachariam a venda. O narrador lecionava no mesmo colégio do professor Franklin e em um intervalo de aula apresentou seu projeto e emprestou algumas de suas anotações e passou o endereço de um amigo, o Zeferino, de Pontas das Canas. Mas o senhor, professor Franklin, acredita em bruxas? Eu acredito na mente das pessoas, que cria tudo o que elas acreditam. (.) meu trabalho é o de apenas anotar as histórias que esse povo conta."(p.99) Maurício achou ótimas as histórias e a idéia de visitar no sábado à tarde o Zeferino, mas o narrador foi sozinho, pois seu amigo foi para Curitiba. Zeferino era um homem simples que recebeu muito bem o entrevistador, o problema foi que começou a cair uma chuva forte. O senhô vai ficá nesta casa até a chuva passá, mesmo que dure três dia falou Zeferino."(p.101) A conversa dentro da casa foi trivial até que Zeferino foi perguntado sobre duas réstias de alho penduradas na parede da sala e sua esposa informou que eram proteção contra as bruxas e que ele deveria ficar também com um dente de alho. Relataram ao narrador que o filho deles, o menino Pedro, já estivera embruxado e que dona Luiz Benzedera conseguira salvá-lo com uma reza assim: Treze raio tem o sóli/treze raio tem a lua./Sarta diabo pro inferno/ qu'esta alma não é tua./tosca marosca, rabo de rosca/ (.) (p.103 A conversa seguiu até a hora de dormirem e a noite foi de pernilongos e já pelas cinco e meia da manhã o narrador estava de pé. Ele se despediu e foi pelo lado da praia e pelo caminho encontrou uma baleeira com um abrigo e ficou aterrorizado ao ver "três velhotas dentro da baleeira, muito altas, magras e feias, que fingiam remar remos invisíveis e faziam uma tremenda algazarra. Um pouco adiante, a dois passos da baleeira, numa árvore enorme e de tronco grosso, outra velhota do mesmo tipo ia e vinha, sentada num balanço preso por cordas trançadas e amarradas a um dos galhos."(p.105) As bruxas ameaçaram: Lá vai o istepô de bundinha branca! Tá dizendo por aí que vai falá da gente! (.) Vamo enfiá um remo no rabo desse maroto!"(p.105) O folheto nunca foi publicado, Maurício não voltou de Curitiba e só agora, anos mais tarde, Silveira de Souza confessa ter coragem de contar o ocorrido e reza para que ninguém acredite. • (Ver Menos)

  11. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • UMA NOITE DE PROFUNDA INSÔNIA, • de Amilcar Neves • Narrativa: • Foi numa sexta-feira, numa noite de profunda • insônia solitária. • O narrador, solteiro, diz que mora ocasionalmente • na Ilha e que encontrou seu vizinho casado, que é • Franklin Cascaes. • Ambos estão nos distantes anos 60 ou setenta.

  12. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • UMA NOITE DE PROFUNDA INSÔNIA, • de Amilcar Neves • Narrativa: • A rua está deserta, um ou outro cachorro perdido • vagam pelas ruas. • Os vizinhos se encontram e caminham • despreocupados até a Lagoinha do Jacaré do Rio • Tavares, onde se acredita ser uma "maternidade • tatarina",um "ninho de boitatás".

  13. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • UMA NOITE DE PROFUNDA INSÔNIA, • de Amilcar Neves • Narrativa: • A noite é perfeita e o Franque declama uma • quadrinha: Ilha das velhas faceiras e, também, das • moças prosas... As bruxas dos teus encantos são l • lindas que nem as rosas...

  14. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • UMA NOITE DE PROFUNDA INSÔNIA, • de Amilcar Neves • Narrativa: • O narrador confessa acreditar que as bruxas da Ilha • são absolutamente horríveis, e Mestre Francolino • afirma: Quase isso, pois na verdade, apenas metade • desse pessoal todo é que insiste em atestar que as • bruxas são do jeito que descreveres.

  15. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • UMA NOITE DE PROFUNDA INSÔNIA, • de Amilcar Neves • Narrativa: • Apenas a metade diretamente interessada no • assunto: as mulheres, as nossas mulheres, que • temem a concorrência imbatível. • Em seguida, eles avistam um grupo de mulheres, • que abanam o rabo para o vizinho do narrador: • Francolino, meu lobisomenzinho de estimação!

  16. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • UMA NOITE DE PROFUNDA INSÔNIA, • de Amilcar Neves • Narrativa: • Uma linda bruxa negra aproxima-se, dá um beijo em • Cascaes. • Percebe o narrador que todos estão nus. • Retornam para casa, pela Mauro Ramos.

  17. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • UMA NOITE DE PROFUNDA INSÔNIA, • de Amilcar Neves • Narrativa: • Fala Franklin: A vida é assim mesmo, meu jovem • amigo. Por diversos motivos não temos como • compartilhar com os outros os nossos melhores • momentos. Nem mesmo sendo um escritor de f • ficção: primeiro porque ninguém vai acreditar em ti e, • se tiveres a intenção de falar a sério, corres um risco • considerável de ver a tua reputação arruinada sem • remédio.

  18. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • UMA NOITE DE PROFUNDA INSÔNIA, • de Amilcar Neves • Observações: • Neste conto, o autor reconstrói um encontro com o • próprio Franque, colocando em xeque variadas • questões: • Bruxa existe ou não? • Escritor terá "a intenção de falar sério"? • Qual é a verdade? • A ficção engloba personagens reais ou a realidade se compõe de personagens ficcionais? • Criador e criatura podem conviver?

  19. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • HISTÓRIA PRAIANA, de Eglê Malheiros • Tema central: • Bruxas assumem a condição de mulher autônoma • no patriarcado das famílias, então, quem se rebela é • bruxa?

  20. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • HISTÓRIA PRAIANA, de Eglê Malheiros • Narrativa: • Partos foram doze, criou cinco. • Docelina é mulher de pescador, casada há 20 anos. • Já passou muita fome, está feia, pelancuda e seu • marido é absolutamente controlador: não permite • modernices, como, por exemplo, ir ao Posto de • Saúde.

  21. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • HISTÓRIA PRAIANA, de Eglê Malheiros • Narrativa: • Além disso, ele é o guardião do título de eleitor • desta mulher sofredora. • Ele, o marido, chamado Armando, é dado a • bebedeiras, bailões e bate na esposa. • Mas, ultimamente, aos sábados, Docelina tem ido ao • posto de saúde para umas palestras sobre a • valorização da mulher e seu trabalho.

  22. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • HISTÓRIA PRAIANA, de Eglê Malheiros • Narrativa: • À noite, os homens comentam no bar que as bruxas • estavam virando a cabeça das mulheres. • Um deles diz: Bruxas é que elas são. • Aquele professor da Escola de Artífices, que vivia • escutando essas histórias, devia sair do túmulo para • conhecer as verdadeiras, as dele não assustam • mais ninguém. Tudo culpa das bruxas que vieram da • cidade bagunçar as ideias de nossas mulheres.

  23. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • HISTÓRIA PRAIANA, de Eglê Malheiros • Narrativa: • A Docelina ontem me enfrentou, se eu for para o • bailão e encher a cara ela vai embora; pior, vai • querer abrir inventário da herança do pai e pedir sua • parte no terreno. • Armando afirma gritando: "Os da antiga tinham • razão, bruxas, bruxas, existem e são de assustar.

  24. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • HISTÓRIA PRAIANA, de Eglê Malheiros • Observações: • Eglê Malheiros, retrata a história de Docelina e seus • 12 filhos, reduzidos a cinco, ou a quatro e meio, • consolando-se com seus "anjinhos, almas puras", • sem deixar, porém, de refletir "por que só filho de • pobre vira anjinho?" • Enquanto as "modernices" a aliciam, seu marido • Armando lança a contrapartida: nessas "modernices" • estão as "bruxas" da pior espécie", como diria, se • presente estivesse, aquele professor da Escola de • Artífices!

  25. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • MINHA QUERIDA, de Fábio Brüggemann • Tema central: • Antiga embarcação como pretexto para a realidade • paralela. • Narrativa: • O rapaz estava começando a se despedir de uma • vida muito dura de garçom.

  26. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • MINHA QUERIDA, de Fábio Brüggemann • Narrativa: • Agora, além de dar adeus ao "Minha Querida", não • precisa adivinhar mais, pela cara, roupa e conversa • do freguês, o quanto será a féria, extraída dos mal • contados dez por cento, no fim da noite, às vezes • começo da manhã. • Não precisaria mais comprar terno de brechó, • podia dar adeus às lojas de um e noventa e nove • onde comprava a decoração de sua casa depois • que os pais morreram no naufrágio do "Amália“.

  27. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • MINHA QUERIDA, de Fábio Brüggemann • Narrativa: • Aliás, após a morte da esposa do armador, ele • comprara um novo barco com o nome "Minha • querida Amália", mas, pouco depois, casou-se • novamente e mudou o nome para "Minha Querida". • Contudo o que deixava nosso jovem mais feliz com • sua nova vida era não passar mais em frente ao • cemitério que ele jurava ter visto assombrações. • Um dia, quando ainda trabalhava no restaurante, • chegou para jantar o seu Francolino. • O garçom pediu para o patrão apresentá-lo ao • professor que ouviu a história do rapaz e achou • graça, mas afirmou que iria até o cemitério para • mostrar a farsa das almas penadas. • Seu Francolino mostrou que "o barulho era de uma • árvore que balançava quando havia vento e • raspava os galhos no muro. E a imagem era a • sombra da mesma árvore no mesmo muro branco, • iluminada pela mesma luz de um poste." • Depois da explicação, o professor foi embora e o • rapaz foi com uma moça ao cemitério e visitaram • uma lápide bem iluminada pela mesma luz que • assombrava o muro e acharam a inscrição: “aqui • jaz Amália Rodrigues da Silva (1921-1974)" • O rapaz concluiu que era a dona Amália do Minha • Querida, e no sábado seguinte comprou o bilhete • 1921 e ficou rico. • Mudou de vida, casou-se com a moça, e agora vai • todos os sábados ao túmulo de dona Amália, que • nasceu, para a sorte do rapaz, em 1921. • Observações: • Examinada criticamente, a história do marido de • Amália (no naufrágio do "Amália"), insinua-se a • história do cemitério assombrado, quando o seu • Francolino mais desfaz crendices do que recolhe • causos.

  28. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • MINHA QUERIDA, de Fábio Brüggemann • Narrativa: • Um dia, quando ainda trabalhava no restaurante, • chegou para jantar o seu Francolino. • O garçom pediu para o patrão apresentá-lo ao • professor que ouviu a história do rapaz e achou • graça, mas afirmou que iria até o cemitério para • mostrar a farsa das almas penadas.

  29. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • MINHA QUERIDA, de Fábio Brüggemann • Narrativa: • Seu Francolino mostrou que "o barulho era de uma • árvore que balançava quando havia vento e • raspava os galhos no muro. E a imagem era a • sombra da mesma árvore no mesmo muro branco, • iluminada pela mesma luz de um poste."

  30. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • MINHA QUERIDA, de Fábio Brüggemann • Narrativa: • Depois da explicação, o professor foi embora e o • rapaz foi com uma moça ao cemitério e visitaram • uma lápide bem iluminada pela mesma luz que • assombrava o muro e acharam a inscrição: “aqui • jaz Amália Rodrigues da Silva (1921-1974)" • O rapaz concluiu que era a dona Amália do Minha • Querida, e no sábado seguinte comprou o bilhete • 1921 e ficou rico.

  31. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • MINHA QUERIDA, de Fábio Brüggemann • Narrativa: • Mudou de vida, casou-se com a moça, e agora vai • todos os sábados ao túmulo de dona Amália, que • nasceu, para a sorte do rapaz, em 1921. • Observações: • Examinada criticamente, a história do marido de • Amália (no naufrágio do "Amália"), insinua-se a • história do cemitério assombrado, quando o seu • Francolino mais desfaz crendices do que recolhe • causos.

  32. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel DOIS BANDOLINS, de Flávio José Cardozo Tema central: A memória da coisa vivida (a ausência crônica da mulher, Elisabeth).

  33. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • DOIS BANDOLINS, de Flávio José Cardozo • Narrativa: • “Amanhã não venho trabalhar",o professor disse ao • auxiliar Peninha no final do expediente, amanhã... tu • bem sabes."e as palavras pararam. • No entanto, nem foi preciso dizê-las: Peninha botou • a mão no ombro dele e bastou isso para mostrar • que se lembrava muito bem de que amanhã, 30 de • abril, era mais um aniversário da morte de Dona • Beth.

  34. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • DOIS BANDOLINS, de Flávio José Cardozo • Narrativa: • O professor dormiu pensando em passar aquele dia • especial entre os desenhos, os escritos, as • esculturas e os crochês, as músicas e as flores de • sua amada falecida mulher que adorava tocar uma • modinha de bandolim quando viva e moradores • daquela mesma casa da Júlio Moura.

  35. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • DOIS BANDOLINS, de Flávio José Cardozo • Narrativa: • Mas o professor decidiu que seria melhor trabalhar • no Museu, lá Beth seria mais viva. • O dia foi normal e, após o expediente, o professor • saiu sem pressa com seu TL verde. • À noite, sua fiel empregada Ana pôs a mesa.

  36. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • DOIS BANDOLINS, de Flávio José Cardozo • Narrativa: • Ele sentou no sofá e começou a pensar em bruxas: • a Irinéia das Dores, a Virgilina e as três filhas, • Demetra, Canda Mandioca, Nica Besuga, Sinhá • Bidica e outras. • Lá pelas onze e meia, ele ouviu sons, sim... era • música... e de bandolim!

  37. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • DOIS BANDOLINS, de Flávio José Cardozo • Narrativa: • Foi para fora de casa ver o que era e quem tocava o • instrumento não era Beth. • Seca como um longo graveto, murcha e feia que • nem os sete pecados capitais, quem tocava o • bandolim não era Beth, não, diabolicamente não, • quem tocava não era outra senão a bruxa • bandolinista da Orquestra Selenita Bruxólica, que • certa noite, assim como o professor numa andança • pela Ilha, apareceu para o pescador Geraldo Sem • Medo, no Retiro da Lagoa.

  38. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • DOIS BANDOLINS, de Flávio José Cardozo • Narrativa: • A bruxa horrorosa gritava para que Franklin • esquecesse sua Beth, que ela estava morta. • O professor não sabia se invocava contra a megera • segredos exorcísticos ou se deixava a bruxa ali • mesmo. • Optou pela segunda.

  39. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • DOIS BANDOLINS, de Flávio José Cardozo • Narrativa: • Quando entrou em casa, apareceu-lhe sua amada • esposa, tocando a Ave-Maria de Schubert em seu • bandolim. • Um vento, um bafo, pela Júlio Moura afora foi aquele desarvorado vôo de bruxa, sobre o qual o professor, discreto, nunca escreveu que um outro curioso por casos raros o fizesse.

  40. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • DOIS BANDOLINS, de Flávio José Cardozo • Observações: • Em tom poético, sensual e transfigurador, o conto • restitui-nos um dia de ausências, saudades, revivências • de um Cascaes, de certa forma já desprendido do solo • rude e entremostrando dimensões sublimadas, nos seus • amores com Beth, amores que, se foram estéreis em • relação a filhos, multiplicaram-se na afeição mútua, a • ponto de, falecida ela, somente salvá-lo da solidão o • "bendito Museu da Universidade",nesses "quatro anos • sem Beth e sempre com ela",cena plenificada com a • bruxa bandolinista sublimada e fundida na "soberana" • Beth, bandolim silencioso na mão direita".

  41. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • BRANCO ASSIM DA COR DA LUA, • de Jair Francisco Hamms • Tema central: • A memória de uma infância, na Ilha antiga, • encontra áreas de profundidade humana. • Narrativa: • Sabe quem morreu? O Orlandinho, filho da dona • Zenilda.

  42. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • BRANCO ASSIM DA COR DA LUA, • de Jair Francisco Hamms • Narrativa: • O seu Orlando saiu agorinha para comprar um • caixãozinho junto com o professor Franklin • Cascaes, que, assim que soube, correu para lá. • O Orlandinho, por quem a mamãe lamentava, era • albino.

  43. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • BRANCO ASSIM DA COR DA LUA, • de Jair Francisco Hamms • Narrativa: • Ele viveu seus poucos 11 anos sofrendo, ora contra • a bronquite, ora com asma. • Era filho do negro Orlando da Purificação e da dona • Zenilda, linda negra.

  44. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • BRANCO ASSIM DA COR DA LUA, • de Jair Francisco Hamms • Narrativa: • O narrador, que confessa ter sido seu vizinho, • conta das perseguições ao menino, inclusive • quando o chamavam de "barata descascada“. • Tanto que na escola Orlandinho não saía para o • recreio para não ser mais humilhado ainda e ficava • desenhando.

  45. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • BRANCO ASSIM DA COR DA LUA, • de Jair Francisco Hamms • Narrativa: • Certo dia apareceu a professora dona Florentina • com um homem até então desconhecido, era o • professor Franklin Cascaes, que viera conhecer o • Orlandinho e seus desenhos. • O professor ficou muito impressionado com a • qualidade dos desenhos e prometeu matricular o • menino na escola particular da professora Jurema • Cavallazzi e no ano seguinte na Escola Industrial • onde ele lecionava.

  46. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • BRANCO ASSIM DA COR DA LUA, • de Jair Francisco Hamms • Narrativa: • Pela primeira vez, o menino sorria e parecia feliz. • A escola era longe e, quando o menino se cansava, • seu pai o levava no cangote. • Na hora do recreio, Orlandinho desenhava os • colegas ou heróis dos quadrinhos e era um • sucesso.

  47. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • BRANCO ASSIM DA COR DA LUA, • de Jair Francisco Hamms • Narrativa: • Mas esta felicidade só durou três meses, pois no • dia 10 de julho, Orlandinho morria, vítima de • insuficiência respiratória. • O narrador descreve a sala e os que estão no • velório, como o Tércio da Gama e o Adolfo Boss e a • parteira dona Vicentina.

  48. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • BRANCO ASSIM DA COR DA LUA, • de Jair Francisco Hamms • Narrativa: • O narrador lembra que foi ali, há pouco mais de 11 • anos, ali mesmo, num quartinho ao lado da sala, à • luz de um lampião, fora a primeira pessoa a ver e a • segurar aquele menininho branco, branco, branco, • branco assim da cor da lua.

  49. 13 CASCAES Orgs. Flávio José Cardozo e Salim Miguel • BRANCO ASSIM DA COR DA LUA, • de Jair Francisco Hamms • Observações: • O escritor, em cena de bastante intimismo poético, • concentrada na morte do menino Orlandinho, faz • transitarem do real para a ficção: Franklin Cascaes, • Tércio da Gama, Adolfo Boss, o próprio autor- • narrador - todos "rapazes pequenos",moradores a • Rua Bocaiúva, há décadas passadas.